Cinema é a linguagem do olhar
Cinema é a linguagem do olhar
Mauro FrassonDanton Mello: A característica do cinema está no olhar, qualquer mudança e você sai de focoMauro FrassonO londrinense Zeca Cenovicz como o Alfares Lépage: aulas de equitação e esgrimaTrês atores de Sangue Azul entrevistados pela Folha Danton Mello e os paranaenses Zeca Cenovicz, de Londrina, e Altamar Cesar, de Curitiba foram enfáticos: o cinema exige uma interpretação muito própria, e para eles a experiência é enriquecedora. Foi preciso reciclar-se para se dar bem com a câmera e com os microfones que captam tudo. Cinema, em suma, é a arte da ampliação e do olhar.
Com alguns curtas no currículo (Vítimas da Vitória, Bar Babel), vídeos e episódios de TV, o ator Altamar Cesar é essencialmente teatral. Participar de um longa, para ele, é gratificante seja por estar em contato com pessoas ligadas ao cinema, como também o universo é o oposto do palco.
Aqui você tem que esquecer que é de teatro, diz o moço que na tela será o arrogante e frio Alferes Freire. Uma vacilada no texto, uma besteirinha qualquer e aparece mesmo, o microfone pega tudo.
Para quem está acostumado à empostação da voz e amplos gestos, como é no teatro, obrigar-se a se conter é um dos melhores exercícios. É como se entrasse noutro mundo da representação, e tivesse que refazer tudo aquilo que aprendeu.
O londrinense Zeca Cenovicz frisa as experiências paralelas que acompanham o trabalho. Num filme como este você não fica só na atuação. Vai fazer equitação, aprender a manusear uma espada, a marchar coisas da rotina do exército. Meu personagem (verídico) é Alferes Lépage, um carrasco que, transportado aos dias de hoje, seria um aspirante a primeiro-tenente.
Eu vejo assim: o cinema dá oportunidade ao artista de atuar de outra maneira mais sutil. Você tem que esquecer o teatro, porque a representação é outra. Muito mais comedida, explica. É ótimo transitar em todas as áreas, seja no teatro, cinema ou televisão. Você se amplia na sua profissão, é uma coisa nova.
Se para Zeca e Altamar Cesar desvenda-se um mundo novo, o mesmo acontece para Danton Mello, muito embora ele venha dos estúdios de televisão. Cinema e TV até podem estar mais próximos que o teatro, mas a reciclagem serve também para ele.
Minha escola é a da televisão, fiz dois curtas, mas nada se compara a um longa. O trabalho de concentração exigido aqui é muito maior; está sendo maravilhoso e espero que este seja o primeiro de uma leva.
Sangue Azul romanceia os acontecimentos ocorridos entre 1889/1894, tendo de um lado republicanos e de outro federalistas. O papel de Mello (Daniel) é a parte fictícia da história. Ele é um jovem soldado que em plena guerra se apaixona por Anésia (Camila Pitanga). Os dois formam o par romântico nesse jogo de interesses e incertezas.
Danton está acostumado a uma acelerada indústria de imagens. Na TV você grava 30 cenas num dia. O câmera-man faz o foco; de repente você vai fazer uma cena, pára num lugar errado e ele corrige. Não tem problema. Aqui é outra coisa é tudo marcado, qualquer mudança e você pode sair fora do foco.
Para o ator o cinema é o terreno do olhar. A característica está no olhar, na voz, ensina. Ele acredita que a pessoa só aprende errando; então sua carreira cinematográfica tende a render melhor no futuro. Sem ares de fastio, distribuiu autógrafos e simpatia por onde andou, mas o que ele queria não eram os gritinhos das fãs era o lado técnico do cinema.
Gosto de entender essa parte. Por exemplo, vou fazer uma cena e pergunto que lente está sendo usada. Lente 27, então eu sei que vai ser uma cena que está aberta. Mas noutra cena, a lente é 150, que dá close. Ficar próximo à equipe, acompanhar todos os andamentos, ver as tomadas de cena, observar a luz tudo faz parte de um mundo que ele quer entender mais a fundo.
Deixando as filmagens, Danton Mello viaja para os Estados Unidos onde ficará durante quatro meses, aprimorando-se num curso de ator de Los Angeles. Aproveitará para acompanhar a montagem de Serro Azul nos laboratórios CFI que, segundo Maurício Appel, é dos três melhores do mundo. De volta ao Brasil Danton estudará propostas. No momento, nenhuma novela à vista.(Z.C.L.)





