Cartas roubadas, amores clandestinos e suicídio romântico. Estes os principais ingredientes de ''Possessão'', também em lançamento nacional nesta semana (veja a programação de cinema na página 2) baseado no premiado best-seller cult de A. (Antonia) S. Byatt, publicado em 1990 - no Brasil editado pela Companhia das Letras. Os personagens são poetas e críticos de poesia transitando entre o século 19 e o tempo presente. Em comum, a princípio todos estão possuídos pela encantatória magia das palavras, e mais tarde pelo envolvimento afetivo.
Roland Michell (Aaron Eckhart) é um pesquisador-bolsista americano que vai a Londres aprofundar suas investigações sobre a vida de seu autor favorito, Randolph Henry Ash (Jeremy Northam), o poeta preferido da rainha Vitória. Quando encontra duas cartas até então desconhecidas, Michell acredita que Ash esteve muito próximo de uma poeta feminista, lésbica e obscura chamada Christabel LaMotte (Jennifer Ehle). A descoberta acaba levando o pesquisador até a maior autoridade inglesa em Christabell, a professora Maud Bailey (Gwyneth Paltrow). Ela a princípio se mostra pouco impressionada pelo achado de Michell. Entretanto, à medida em que os dois estudiosos vão mais fundo nos fatos acabam convencidos de que não apenas os poetas realmente se conheceram como podem ter sido amantes apesar da rígida sociedade vitoriana. E enquanto esclarecem a história trágica de Christabel e Ash no século 19, mais precisamente na década de 1860, a dupla contemporânea Michell-Maud compreende que a inquietação intelectual de ambos está evoluindo para um relacionamento mais íntimo.
Assistir ''Possessão'' é compreender que se está diante de dois filmes que ocorrem simultaneamente. Um, aquele que o diretor Neil LaBute está tentando fazer, e outro o que está acontecendo na tela. O filme da tentativa é um conto sobre possessão romântica, acontecendo em dois séculos. ''Possession'' está planejado como um comentário sobre o amor e como ele se realiza (ou não), sobre seres e sentimentos próximos da eternidade e sobre pessoas afetadas pelas convenções. Isto, obviamente, é uma inteligente história literária, que prende o interesse e é quase sempre comovente mas nunca chega a atingir um nível cinematográfico mais elevado ou plenamente satisfatório. O que de certa forma confirma a dificuldade de se adaptar o texto de A.S. Byatt, que na tela acaba sendo com frequência alongado - a citação de poemas torna-se um repetitivo e sofrido prazer. O filme é melhor sucedido quando busca e encontra - e o maior triunfo aqui é como ''Possessão'' realiza de maneira prática e esperta a ponte formal entre presente e passado - o contraste entre o rigoroso esplendor do romance praticado no século 19 e o casual salve-se quem puder ditando as regras sentimentais neste limiar de terceiro milênio.
''Possessão'' revela uma faceta inusitada de Neil LaBute, o lado soft deste diretor furiosamente misógino trabalhando com um pé na vertente indie e outro na mainstream hollywoodiana. É dele a instigante trilogia cínica e dark composta por ''Na Companhia de Homens'', ''Meus Amigos, Meus Vizinhos'' e ''Enfermeira Betty'', todos ao alcance na locadora mais próxima. Mas mesmo operando numa frequência mais amena que o habitual, LaBute continua a cutucar o desconforto das interações humanas, o descompasso dos sentimentos, as idiossincrasias de seus personagens deslocados no tempo e no espaço das afeições. Por isso é um realizador que sempre merece atenção.

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