Se na natureza nada se perde e tudo se transforma, em relação ao público dos cinemas de Londrina essa afirmação também é valida. Afinal, buscando novas formas de sobrevivência, as salas de cinema não apenas diminuíram a quantidade de poltronas, como passaram a se concentrar nos shoppings centers, aliando-se ao lazer capitalista.
Nesse sentido, engana-se quem acredita que o movimento em Londrina teve início com a criação das salas do Catuaí Shopping, pelo contrário, enquanto os grandes cinemas do Centro agonizavam, o Shopping Com-Tour trazia em 1973 o Studio Com-Tour, um espaço muito celebrado, à época, pelo luxo que proporcionava aos seus frequentadores, principalmente pela arquitetura inovadora, já que era um dos poucos do país a contar com um ''fumoir'' ou ''fumódromo'', que permitia assistir ao filme sem perder o vício.
Pelo Com-Tour passaram grandes filmes de arte e de sucesso comercial, já que foi em seu interior que teve início a sessão da meia-noite, em que eram exibidos filmes alternativos. Mas a chegada do videocassete e dos multiplexes também foram cruéis ao Cine Com-Tour, que teve sua última sessão em novembro de 1991, com fama de pervertido, depois de uma temporada exibindo fitas pornográficas.
Porém, na mesma época, as salas do Shopping Catuaí abriram suas portas. Eram três salas pequenas, seguindo os novos padrões de cinema até então. Já em 1998, os três cinemas passaram por reformas e o shopping passou a abrigar mais duas salas no formato stadium (arquibancada), fazendo parte do sistema multiplex, que reúne várias salas num mesmo local. Em 2003, mais duas salas são inauguradas. Ao todo, as sete salas do Catuaí possuem 2.100 lugares, apenas 100 lugares a mais do que continha um único cinema da cidade, o Cine Londrina da avenida Paraná.
Além do Shopping Catuaí, em janeiro de 2000 são inauguradas duas salas no shopping Royal Plaza, construído no Centro. Já a última sala aberta na cidade foi em 2005 com a volta do Cine Com-Tour, mas dessa vez sob o comando da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e de filmes alternativos, uma vez que o Ouro Verde, que havia sido comprado pela universidade na década de 1970 e servia a esse intuito, em 2002 foi incapacitado de exibir filmes depois de uma desastrosa reforma comandada pelo Estado.
Hoje, Londrina conta com 10 salas de cinema e muitos órfãos. O número parece pequeno frente a quantidade de lançamentos nessa época do ano, afinal, as filas de fim de semana revelam um público faminto pela diversão cinematográfica. Porém, alguns se dividem em relação à abertura de novas salas.
Para a advogada Márcia Regina Lopes da Costa Nobrega, 36, que confessou não ir mais tanto ao cinema desde que se tornou mãe, dez salas já são suficientes. ''Acredito que pela quantidade de habitantes, o que é oferecido já é um número bom'', afirma Márcia.
Da mesma opinião compartilha a professora Ilau Bazan, de 62 anos. Para ela, o número de salas é conveniente ao porte da cidade. ''Embora a cidade não ofereça muitas alternativas de lazer e o cinema seja uma das poucas, acredito que pelo porte do município, o número é bom'', afirma Ilau. Quando questionada se Londrina não estaria perdendo para municípios como Ribeirão Preto (SP), de porte demográfico semelhante e com mais de 30 cinemas, a professora defendeu que o público de lá é diferente daqui. ''Não dá pra comparar. São populações diferentes com costumes e uma história diferente'', diz.
Mas não é assim que pensa o técnico de informática Marcelo Henrique Artilha, 23. De acordo com ele, a cidade suportaria sim novas salas. ''Talvez com mais cinemas o londrinense tivesse mais alternativas de preço e horários. Isso sem contar que diminuiriam as filas para grandes sucessos, pois mais cinemas poderiam oferecer um mesmo filme'', defende Artilha.
Mas como cinema é também diversão familiar, o comerciante Cláudio Massami Missaka, 34, e sua companheira, a promotora de eventos, Susana Dellaroza, 28, sempre comparecem à sala escura acompanhados dos filhos, de 11 e 6 anos. ''Todos gostam. É de fato uma diversão familiar'', destaca Missaka.
Ainda de acordo com ele, o cinema hoje é algo que já está condicionado a estrutura do shopping. ''É um local que dá pra deixar os filhos frequentarem sem problemas. Isso sem contar a comodidade do estacionamento'', afirmou o comerciante.
Já a companheira de Missaka disse sentir saudades das salas do Centro. ''Acho que por morarmos no Centro, a gente acabava indo mais no Vila Rica'', disse Susana Dellaroza. ''Hoje o Centro está meio morto. O Vila Rica era um ótimo espaço, poderia voltar'', afirma a promotora de eventos.
Quando questionados se a pirataria um dia acabaria com o cinema, a opinião entre os quatro da família foi unânime. ''Não dá pra comparar uma cópia pirata de um filme que está no cinema com a experiência de vir até o cinema. A qualidade de som, imagem, e o envolvimento que você desenvolve com o filme são inigualáveis'', aponta Cláudio Missaka.

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