Cinema curva-se para o teatro e elege Gwyneth melhor atriz
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domingo, 21 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 22 (AE) - E o cinema curvou-se para o teatro: "Shakespeare Apaixonado" é um filme que celebra a arte da representação no palco. O filme de John Madden foi o grande vencedor do Oscar 99. Levou sete estatuetas, entre elas as de melhor filme e atriz (Gwyneth Paltrow). Merecia a primeira, mas não a segunda. Gwyneth pode ser uma gracinha, mas não é a melhor de coisa nenhuma. Toda a crítica americana foi unânime em reconhecer que Fernanda Montenegro, a Dora de "Central do Brasil", era melhor.
Foi mais uma injustiça do Oscar. Gwyneth foi premiada mais pelo que poderá ser do que pelo que já é. E o agradecimento dela foi constrangedor. Começou na base da baixa auto-estima, reconhecendo que as outras competidoras eram melhores. Terminou citando o primo Kevin, que morreu, tudo isso em meio a estremecimentos nervosos que mais pareciam tremeliques.
Mais uma festa chata, mas quando é que o Oscar não é chato? Os clipes foram a salvação da noite. O primeiro celebrou 100 anos de cinema e 70 de premiação da academia, o segundo homenageou o eterno Blue Eyes, reconstituindo grandes momentos da carreira de Frank Sinatra no cinema, e o terceiro lembrou os caubóis. Foram ótimos. O resto deixa a premiação sob suspeita.
Antigamente havia a crença de que ninguém sabia o que havia dentro daqueles envelopes. Agora, parece que todo mundo já sabe. Convidada para apresentar o Oscar de melhor filme estrangeiro, Sophia Loren pensou em declinar do convite. Não ficaria bem, se seu compatriota Roberto Benigni não fosse o premiado. Na Itália, antes de seguir para Hollywood, ela segredou a amigos que fontes da academia lhe garantiram que não havia motivo para preocupação. Benigni seria o vitorioso da categoria. Ela se comportou o tempo todo como quem só estava no palco para celebrar a Itália.
Jim Carrey também matou a charada. Simulando choro, ele satirizou no palco do Dorothy Chandler Pavillion a própria decepção por não ser indicado por "O Show de Truman - O Show da Vida", mas perguntou como poderia ter sido, se já havia Roberto? Não foi apenas a antecipação de que Roberto Benigni seria o melhor ator, o primeiro estrangeiro a ganhar o prêmio representando em seu idioma de origem (antes houve apenas uma atriz: Sophia Loren, por "Duas Mulheres"). Também era uma vingança sutil, uma maneira de dizer que, palhaço por palhaço, a academia preferira Benigni.
Clown patético - Não adianta chorar a derrota de Central do Brasil. O filme de Walter Salles não teve o investimento publicitário do de Benigni, "A Vida É Bela", para chamar a atenção dos membros da academia. A empresa produtora e distribuidora Miramax investiu US$ 10 milhões na promoção de "A Vida É Bela" nos Estados Unidos, mais do que o filme de Benigni custou. Mas o próprio Benigni garantiu seu lugar no pódio. Fazendo a linha clown, ele ocupou todos os espaços na mídia americana. Talvez tenha sido mais patético do que clownesco, mas atingiu seu objetivo. Pudera: possivelmente nunca um estrangeiro teve tanta exposição no Oscar.
Comentaristas de TV consideraram a escolha de Benigni como melhor ator a supresa deste Oscar. Mas surpresa por que, se ele já havia recebido o prêmio do Actors Guild, que, nos últimos anos, tem sido um indicativo do Oscar da categoria? Surpresa maior talvez tenha sido a dissociação dos prêmios de melhor filme e direção. Steven Spielberg foi o melhor diretor, mas "O Resgate do Soldado Ryan" não foi o melhor filme, perdendo para Shakespeare, que levou mais duas estatuetas merecedíssimas: as de melhor atriz coadjuvante, para Judi Dench, que criou uma Elizabeth I extraordinária, e melhor roteiro original, para Marc Norman e Tom Stoppard.
Era, realmente, o melhor roteiro original da competição, mas as virtudes de Shakespeare não se limitam a esse roteiro esperto e às qualidades de produção. A direção de Madden é inspirada, tem o timing perfeito. Deveria ter levado, também, o prêmio da categoria. A derrota de Spielberg, pois foi uma derrota, é tanto mais flagrante porque dos cinco Oscars que "Soldado Ryan" recebeu quatro foram na categoria de prêmios técnicos, em que concorria com nulidades como "Armageddon".
Foi um Oscar marcado pela política. O clipe que homenageou os heróis da humanidade, celebrados pelo cinema, levou ao palco do Dorothy Chandler ninguém menos do que o astronauta John Glenn. Logo em seguida veio o general Collin Powell, ex-comandante das Forças Armadas dos Estados Unidos, para apresentar os dois filmes de guerra indicados na categoria principal - "Soldado Ryan" e "Além da Linha Vermelha". Foi definido como a encarnação dos valores americanos. O Oscar, além de uma celebração da indústria cinematográfica americana, é uma celebração da ideologia dominante no País.
Houve, ainda, o Oscar honorário, de carreira, para Elia Kazan (que Wilson Cunha e Renato Machado, na Globo, insistiam em chamar de "Elaia"). A rigor, ele não precisava, porque recebeu duas vezes os Oscars de melhor filme e direção (por "A Luz É para Todos", nos anos 40, e "Sindicato de Ladrões", nos 50). Mas a academia resolveu destacar, mais uma vez, sua importância para o cinema americano. Desde que o anúncio foi feito, choveram protestos. Kazan pode ser, e é, o diretor de obras extraordinárias, mas como homem assumiu uma atitude moralmente condenável ao dedurar antigos companheiros comunistas durante o macarthismo.
Durante dois meses se discutiu, na mídia de todo o mundo e, especialmente, na americana, qual seria a atitude dos integrantes da academia na noite do Oscar. Kazan seria aplaudido
vaiado ou recebido com silêncio? Metade da platéia levantou-se para aplaudir o cineasta, que entrou no palco escudado por Martin Scorsese e Robert De Niro. Entre os primeiros a levantar-se estavam o politizado Warren Beatty, que Kazan lançou em "Clamor do Sexo", e Karl Malden, que ele dirigiu em "Sindicato de Ladrões". Mas as câmeras também focalizaram os que ficaram sentados, sem aplaudir: Ed Harris, Nick Nolte e Ian McKellen, todos de cara amarrada. A ferida ainda não cicatrizou: o macarthismo continua a dividir a vida americana neste século. Kazan sabe disso: agradeceu e, segundo suas palavras, "saiu de mansinho".
Não faltou a tradicional homenagem aos mortos do ano - In Memoriam. Foram lembrados os mortos de 1998. Stanley Kubrick, que morreu no início do mês, ficou fora, mas não foi esquecido. Steven Spielberg subiu ao palco especialmente para destacar a contribuição do gênio de "2001, uma Odisséia no Espaço". Disse que, em toda a história do cinema, não houve artista mais visionário. Foi um momento emocionante quando se ouviram os acordes de "Assim Falou Zaratrusta" para lembrar o grande Kubrick.
"Deuses e Monstros" recebeu o Oscar de roteiro adaptado. Subiu ao palco o diretor e roteirista Bill Condon para outra homenagem. Dedicou o prêmio a James Whale, lembrando que Hollywood voltou as costas para o diretor do clássico "Frankenstein" por não aceitar seu estilo de vida. Homossexual assumido, Whale, biografado no filme, era um esteta que acreditava na beleza como uma forma de monstruosidade. Morreu em circunstâncias misteriosas na piscina de sua mansão. O filme tenta lançar luzes sobre essas circunstâncias.
Escrava rica - Resta falar de Whoopi Goldberg, que foi a mestre-de-cerimônias da noite. Durante todo o tempo, Whoopi fez piadinhas cheias de segundas intenções, carregando nas sugestões sexuais. Pedia: "Não me dêem corda." O público dava e ela chegou a dizer: "Agora, vou até o fim porque no ano que vem não vão querer-me mais aqui." Ela trocou várias vezes de roupa, vestindo até as plumas do astro do glam rock de Velvet Goldmine, que estava indicado para o Oscar de figurinos. Fez rir especialmente quando veio vestida de escrava, para citar a indicação para o Oscar da categoria do filme com Oprah Winfrey, "Amada". "Escrava, sim, mas nunca mais vou passar fome com esse brilhante de 140 quilates, ó" e mostrava a pedra preciosa, numa alusão ao fato de que Oprah, a escrava do filme de Jonathan Demme ainda inédito no País, é a personalidade feminina mais bem paga do show biz americano.
Algumas ausências foram notadas: James Cameron, melhor diretor do ano passado por "Titanic", não foi passar a faixa de rei do mundo para Spielberg, o que possibilitou o retorno de Kevin Costner. Nos últimos anos ele só vinha sendo lembrado no Oscar por seus fracassos. Este ano, Costner ressurgiu. Hollywood tirou-o do limbo, agora que ele voltou a fazer sucesso com "Uma Carta de Amor". Numa festa cheia de mulheres bonitas, nenhuma foi tão deslumbrante quanto Catherine Zeta-Jones, a deusa de "A Máscara do Zorro". Nota 100 para ela. Mas Sophia Loren ficou ali pertinho, quase com a mesma nota. Deve ser a sexagenária mais enxuta do mundo, com aqueles seios que desafiam a lei da gravidade.


