Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Gramado
Especial para a Folha 2
Com a exibição hors-concours de ‘‘Mauá, o Imperador e o Rei’’, de Sérgio Rezende, seguida da entrega dos troféus Kikito aos vencedores, termina hoje à noite o 27º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro. E a comissão organizadora já pode comemorar. O principal intento foi alcançado - privilegiar o cinema, substituindo o dispendioso e excessivo glamour pela qualidade na tela. Se por um lado se conteve este ano o vaivém de algumas celebridades e de muitas outras pouco ou nada célebres, mas sempre reincidentes por aqui, por outro o bom nível dos filmes exibidos, em especial os longas-metragens, demonstra que as providências de guerra adotadas para enfrentar a falta de dinheiro tinham de fato endereço certo. Diante disso, até as especulações sobre possíveis ganhadores desta noite perdem um pouco o sentido. No varejo, o júri oficial e o júri popular nem vão conseguir cometer injustiças. No atacado, o prêmio de conjunto é para o ótimo cinema, que chega na frente.
E depois de uma semana de autêntico verão serrano, com médias na casa dos 20 graus, chuva e muito frio estão de volta aos bastidores do festival. Nada tão alarmante, porém, que impeça ao público de lotar hoje à tarde o Palácio dos Festivais. Antes da exibição de ‘‘La Nube’’, a última homenagem especial da semana, agora ao diretor argentino Fernando ‘‘Pino’’ Solanas, que está em Gramado. Aos 63 anos, é um dos mais significativos diretores do continente. Homem de cinema autoral e engajado nos anos 60 e 70, autor de um famoso manifesto - ‘‘Tercer Cine’’, onde pregava o cinema de guerrilha - e criador do grupo ‘‘Cine Liberación’’, Solanas viveu exilado na França durante os anos de chumbo da ditadura militar argentina. Em Paris transforma-se no cineasta do exílio com dois belos filmes, ‘‘Tangos, el Exilio de Gardel’’, e ‘‘Sur - Amor e Liberdade’’, respectivamente de 85 e 87. De volta a Argentina, mantém-se fiel a um cinema político marcado pela poesia. É eleito deputado mas logo abandona a política. A militância democrática e libertária no cinema é seu domicílio e destino, como prova este ‘‘La Nube’’, uma alegoria sobre o impasse cultural e político na Argentina.
E o segmento de curtas-metragens em competição chegou ontem ao final oferecendo a mesma irregularidade constatada durante a semana. Idéias cansadas, soluções via de regra pouco criativas e estética pretensiosa, com o conjunto oscilando entre a anedota inconsequente, o sociologismo de festa e o psicologismo como fórmula barata e equivocada de efêmero trânsito festivaleiro. Gramado já conheceu seleções de curtas infinitamente melhores.
Terceiro e último brasileiro na mostra competitiva, ‘‘Por Trás do Pano’’ é um filme de simpatia contagiante - e isto não significa mera cortesia ou eufemismo para disfarçar uma recepção fria ou restritiva. A estréia no longa do paulista Luis Villaça é mais uma entre as muitas boas surpresas descobertas na programação. Realizado em apenas 24 dias em Americana, com boa parte das filmagens no teatro Municipal de Americana, interior paulista, ‘‘Por Trás do Pano’’ tem roteiro a quatro mãos, assinado pelo próprio Villaça e pelo dramaturgo Flavio de Souza. Roteiro, segundo o diretor, somente filmado depois de dois anos e 13 versões.
A história, uma comédia urbana com alguns sobretons dramáticos no filão aberto por ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’, de Sandra Werneck, e ‘‘Amores’’, de Domingos Oliveira, se passa na capital paulista, nos dias de hoje. Helena (Denise Fraga) é uma jovem atriz em ascensão, talentosa e insegura. É convidada para um trabalho, um grande desafio para uma profissional ainda inexperiente: criar a Lady Macbeth do clássico shakespeareano, em montagem dirigida e interpretada pelo respeitado Sérgio (Luis Mello), que já conheceu dias de glória. A relação entre os dois, durante os ensaios e fora do palco, acaba se estendendo para as respectivas relações afetivas. Helena é casada com Marcos (Pedro Cardoso), artista plástico que brinca todo o tempo com medos e jogos de ciúmes da mulher. Sérgio vem desgastando o convívio com Laís (Marisa Orth), arquiteta corroída por ciúmes reais e imaginários. Correndo por fora está Alexandra (Ester Góis), ex-mulher de Sérgio, que faz as vezes de consciência crítica do ex-marido. A criação artística vive um impasse no palco, com Sérgio vivendo momento de forte crise. A estréia se aproxima e os desencontros se multiplicam. Momentos de dúvida e humor se alternam.
Com um elenco que brinca em serviço como ninguém, dificilmente ‘‘Por Trás do Pano’’ poderia sair um mau filme. O roteiro trabalha na medida certa a realidade do faz-de-conta, no palco e na vida real. E constrói um fascinante jogo de metalinguagem com uma cenografia que traz a realidade para a boca de cena e vice-versa. De quebra, leva o público a perceber como o ser humano pode ser ridículo, através de pequenas coisas, pequenos problemas que se estendem do cotidiano dos mortais comuns para além dos limites do território igualmente vulnerável das personalidades que transitam na vida artística. Ao final, apenas uma dúvida: por que não ‘‘Othelo’’, com muito mais referências e pontes e entre a tragédia clássica do bardo inglês e o ensaio de tragédia da vida cotidiana dos personagens de ‘‘Por Trás do Pano’’?Termina hoje o 27º Festival de Gramado. Mostra competitiva de longas é a melhor dos últimos anos
Divulgação‘‘La Nube’’: filme que será exibido hoje mostra que o diretor argentino Fernando Solanas é, antes de tudo, um militante do cinemaFrance PresseFernando Solanas, um dos mais significativos diretores do cinema latino-americano, recebe hoje uma homenagem em Gramado

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