Cinema com olhar de artista plástico
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sábado, 26 de abril de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
''É preciso muita perseverança para realizar um filme.'' Com essa afirmação, o diretor curitibano Marcos Jorge, 43 anos, deixa claro que o caminho é árduo para qualquer realizador que queira se dedicar à sétima arte. Seu primeiro longa-metragem de ficção, ''Estômago'', chegou às salas exibidoras do Brasil no último dia 11. Meio termo entre o filme comercial e o artístico, a produção foi a primeira a utilizar um acordo de co-produção Brasil-Itália, que existe desde 1974, mas até então não havia sido utilizado. A burocracia foi grande: levou-se um ano para elaborar o contrato entre as produtoras Zencrane (do Brasil) e Indiana Filmes (da Itália).
A conexão italiana do diretor surgiu na adolescência, de maneira insólita, quando ganhou uma bolsa de estudos, aos 17 anos. ''Fui mandado pra um país da Europa sem que eu escolhesse. Acabou sendo a Itália. Fiquei um ano lá para terminar o segundo grau'', relata. Trabalhou em um grupo de Teatro em Turim, cujo espetáculo tinha vídeos projetados, e esta característica lhe chamou a atenção. ''Descobri que aquilo era o que eu queria fazer. Eu também era interessado em teatro e pintura, mas descobri que não tinha talento para ser ator nem pintor'', admite.
Neste período, também aprendeu a fotografar. Foi assistente de fotógrafos em Milão. Mas o seu forte eram as imagens em movimento. ''Foram anos para descobrir o talento para operar uma câmera como diretor, que é algo que não se descobre rápido. Até que no meu primeiro trabalho na área alguém disse 'você tem o olho pra diretor'. Aí eu achei que tinha talento pra isso'', conclui.
Um ano depois, retornou ao Brasil decidido a estudar cinema. Sem um curso na área em Curitiba, optou pelo jornalismo. ''Continuei sendo 'caxias'. Passei em primeiro lugar no curso na UFPR. Quando me formei, ganhei uma bolsa de estudos pra estudar cinema na Itália. Eu tinha 21 anos. Foi uma grande aventura'', lembra.
Lá passou dez anos estudando e trabalhando na cidade de Roma. Entre seus professores estava o diretor Bernardo Bertolucci, que foi tema de seu primeiro filme, o curta-documentário ''Carta a Bertolucci'', estrelado pelo próprio Marcos Jorge, que lembra do trabalho com ressalvas. ''Nele, o que me incomoda é que eu me exponho muito. Mas eu não sou ator. Eu tenho vergonha do meu trabalho como ator'', confessa.
Sua dedicação maior foi à videoinstalação, devido à relação da imagem em movimento nas artes plásticas. ''Fiz instalações grandes em espaços enormes. Daquelas em que você entra no espaço e é absorvido pela imagem. Expus em vários países europeus e em várias cidades do Brasil.'' Entre seus trabalhos mais renomados nesta área está ''Reflexões'', que ganhou vários prêmios, incluindo o Festival de Tóquio.
Mas ao contrário do que muitos podem pensar, fazer cinema na Europa não é tarefa fácil. ''Eu sempre digo que a gente tem o romantismo de que fazer arte fora do Brasil é mais fácil. Mas não. Na Europa é tão difícil quanto. A facilidade é que lá você está num meio onde existe uma cultura cinematográfica mais difusa. O mercado cinematográfico na Europa é mais rico porque tem mais gente que vai ao cinema'', aponta.
O segundo retorno ao Brasil só entrou nos planos de Marcos Jorge a partir do momento em que o panorama da indústria de cinema no país melhorou. ''Nos anos 90 era impossível fazer cinema no Brasil, então eu não teria chance alguma. Quando eu percebi que tinha um clima mais propício para isso, eu voltei. Foi no ano de 2001'', comenta.
De volta à terra natal, trabalhou como diretor de comerciais e realizou seus primeiros curtas-metragens em película. O primeiro foi ''O Encontro'', de 2002. No ano seguinte veio ''Infinitamente Maio''. Juntos, conquistaram mais de 50 prêmios em festivais.
O formato lançou seu nome no meio cinematográfico, mas o diretor descarta a possibilidade de retornar com os filmes de pouca duração. ''O curta dá praticamente o mesmo trabalho de um longa. E não tem uma expressão real. Com eles, eu só era conhecido entre críticos e gente que faz cinema. Depois que fiz o primeiro longa, as pessoas podem nem lembrar do meu nome e nem ter visto o meu filme, mas mesmo assim, elas me associam como ''o diretor do Estômago''. Hoje eu existo'' (risos). No entanto, uma cena cortada do longa originou o pequeno filme ''Ervas'', disponível no site youtube.
Antes de ''Estômago'', dirigiu outros longas. O primeiro foi o documentário ''O Ateliê de Luzia'', de 2004, sobre arte rupestre no Brasil. O trabalho foi registrado também no livro ''Brasil Rupestre - Arte Pré-histórica Brasileira'', lançado no ano passado, mostrando um Marcos Jorge versátil, atuando nos campos da fotografia e da pesquisa em artes.
''Corpos Celestes'', seu primeiro longa de ficção, foi finalizado mas ainda aguarda o lançamento. Dirigido em parceria com Fernando Severo, o filme foi rodado após ganhar o 1º Edital de Cinema e Vídeo do Governo do Estado do Paraná. Traz a história particular de um astrônomo, vivido por Dalton Vigh.
No atual momento, as atenções estão concentradas na repercussão de ''Estômago'', não somente no Brasil. O filme já foi vendido para 13 países, incluindo Canadá, Argentina, Espanha e Coréia. O primeiro onde entrou em circuito foi a Bélgica uma semana depois da estréia nacional. ''Nossa expectativa é que chegue entre 20 e 30 países. Assim ele vai estar entre os cinco filmes brasileiros com uma carreira internacional saudável'', orgulha-se.
O próximo projeto será o longa ''Dois Sequestros'', com previsão de ser produzido no ano que vem, para ser lançado em 2010. O filme vai tratar de um funcionário de um centro de zoonoses que dirige uma carrocinha, mas certo dia pega o cachorro errado, ocasionando sérios problemas com o dono do animal. Este evento vai marcar sua família pelo resto da vida.


