É uma tarefa assumidamente ambiciosa: em ‘‘Outras Estórias’’, que estreou na última sexta-feira no circuito nacional, Pedro Bial adapta o cinema a Guimarães Rosa, já que, segundo suas palavras, é impossível adaptar o escritor mineiro para o cinema. ‘‘Reduzidas à história, suas narrativas não carecem de força, mas em Guimarães Rosa, como nos grandes artistas, o estilo é tudo.’’ Bial destaca, entre as adaptações do escritor, a que lhe parece a melhor de todas: ‘‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’’. Mas nem no filme famoso de Roberto Santos ele identifica a força da palavra roseana. É o que coloca na tela em ‘‘Outras Estórias’’, feito a partir do livro ‘‘Primeiras Histórias’’, um projeto que começou a tomar forma na cabeça de Bial há mais de 20 anos e que ele conseguiu concretizar, agora, com algumas parcerias importantes. Duas foram fundamentais: as de Cacá Carvalho e Giulia Gam. Além de interpretar episódios do filme, os dois funcionaram como diretores de atores para Bial. O resultado é um filme exigente. Quem quiser facilidade, que fique em casa vendo novela. Ou o Fantástico. Leia a seguir, trechos da entrevista com Pedro Bial.
Sua ligação com a literatura é forte. Você apresenta um programa de TV com entrevistas de escritores. E dá a impressão de ter lido de verdade os livros.
Leio mesmo. Faço questão de ler pelo menos um livro de cada escritor que entrevisto. Quando não dá, você sabe como a vida da gente é corrida, faço uma leitura dinâmica, mas nunca deixo de ler. Não conseguiria fazer as perguntas seguindo o roteiro dos outros. Minha formação é jornalística. Eu quero fazer as perguntas e, para isso, tenho de estar bem informado.
Como foi a sua aproximação de Guimarães Rosa? É verdade que há 20 anos você queria filmar ‘‘Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha?’’
É verdade, sim, desde o tempo da faculdade de jornalismo. Tinha 19 anos quando li ‘‘Primeiras Histórias’’. Já havia lido outros escritores, mas o Guimarães Rosa foi um choque para mim, uma revelação. Fiz um curta de diplomação, queria que o ‘‘Sorôco’’ fosse o meu segundo filme, mas não deu. O projeto perseguiu-me todo este tempo. Fui para o exterior, vivi o meu exílio e, quando voltei, um amigo, o Raul Soares, estava tentando levantar recursos para fazer o ‘‘Sorôco’’. Como o curta é caro e de difícil comercialização, sugeri o documentário sobre o Guimarães Rosa para a GNT e daí partimos para o filme.
O que o atrai no sertão de Guimarães Rosa?
Ele escreveu ‘‘Grande Sertão: Veredas’’ no Rio, em Copacabana. Há muito tempo estava exilado de Cordisburgo, onde nasceu. Muita gente diz que não existe sertão em Minas. O sertão de Guimarães Rosa é metafórico. Refere-se à solidão interior do homem, aos seus espaços internos, aos seus infinitos. Eu também sou um homem urbano. Cresci no Rio, olhando para o mar, que era o meu sertão. Durante o meu tempo de correspondente em Londres, sentia-me muito ligado ao Brasil. Pensava muito no País, no que ele tem de sublime e horrível, no sentido da sua miséria moral e humana. Agora que estou aqui, confesso que tenho mais dificuldade para ver o sublime. Mas continuei sempre ligado a essa idéia do sertão metafórico. Retomo isso no filme.
Foi um filme caro?
Custou R$ 2 milhões e o maior elogio que ouvi foi de alguém do ramo que disse que todo o dinheiro está lá dentro. Não embolsei um centavo do que captei. Ao contrário, investi dinheiro meu, uma grana que tinha para comprar um apartamento. Não comprei o apartamento, mas fiz o filme que quis.
Como você trabalhou com a Giulia Gam e o Cacá Carvalho?
Eu sabia o filme que queria fazer, mas nunca tive prática de trabalhar com atores. Não queria, não podia fazer um filme de interpretação naturalista com aquelas falas do Guimarães Rosa. Chamei a Giulia e o Cacá e eles fizeram um trabalho fabuloso. Cacá fez uma coisa baseada no método do Grotowski. Trabalhou em cima das memórias e lembranças dos atores que escolhíamos, tanto os profissionais como os figurantes. Ele trabalhava de forma a fazer com que essas experiências pessoais fossem incorporadas ao filme e devolvidas em forma de interpretação.

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