Marco Muller, o estreante diretor dessa 61 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica, acertou na mosca quando, no fim de julho, apresentou a seleção que está neste momento sendo aqui vista e avaliada. ''O deslocamento e o mal-estar de viver no mundo moderno, a doença, a ânsia de paz contra a guerra são alguns dos temas dominantes'', disse ele na ocasião. Ainda falta conferir um bom número de filmes até o final da mostra, mas pela fatia que já bateu nas telas do Palazzo Del Cinema dá para sentir que, a depender da atual visão de mundo da comunidade internacional de cineastas, o estado das coisas vai evoluir de mal a pior, não importa se avalizado ou não pelo grande felino alado e dourado.
O olhar de perplexidade e desesperança parece estar por toda parte. Depois da alma dilacerada da cidade grande dos desvalidos de todas as partes e de parte alguma, no filme grego, e da árida e consumada desilusão amorosa oferecida pelo primeiro concorrente francês, a jornada ofereceu mais inquietação e desconforto com Rússia e de novo a França.
A diretora Svetlana Proskurina, 56 anos, que concorre com ''Udalionnyj Dostup'' (Acesso Remoto), disse que seu filme se inspira nas palavras do escritor russo Ivan Bunin: ''Ano após ano, esperamos apenas encontrar a felicidade no amor, e vivemos na esperança de que isto se realize. E tudo permanece em vão...'' Na história narrada com profusão de elipses e preciosismos formais, um jovem traumatizado pela morte da mãe e da irmã no acidente em que foi salvo pelo pai se apaixona pela garota telefonista de chat erótico, ela também em profunda crise familiar. Só se falam por telefone, evitando assim mais desilusão. Mas uma nova tragédia vai mudar esta perspectiva.
Proskurina, co-roteirista de ''Arca Russa'' e que não dirigia há dez anos, não esconde influências do cinema de Alexander Sokurov. Embora tenha descrito seu filme como ''uma love-story ao telefone'', as coisas, claro, não são rasas assim, e a náusea que paira remete também para uma nova Rússia em crise de identidade, impessoal, violenta e nada glamourosa. Já o francês Arnaud Desplechin, 44 anos realizou ''Rois et Reines'' para contar duas histórias. A de Nora, jovem mulher solitária e obscura que vai se casar novamente, e de Ismael, um de seus ex-maridos no momento internado por engano em hospital psiquiátrico. É um drama sobre funções e disfunções nos relacionamentos. Desplechin não economiza excessos no desenho dos personagens e situações, e mesmo a comicidade que surge aqui e ali é raivosamente engraçada. Ambicioso e um tanto dispersivo, o francês peca onde o russo mais acerta: o primeiro tem exatos 150 minutos e o segundo apenas 85. Emmanuele Devos junta-se a Valeria Bruni Tedeschi (de ''5 x 2'') na corrida a Coppa Volpi de melhor atriz.
Como atenuante festiva para este ''tempo de lobos'', o mar está em permanente agitação no trajeto aeroporto Marco Pólo-Hotel Excelsior, com o incessante leva-e-traz de vips globais. Tom Cruise aportou, e ontem esteve pessoalmente apresentando ''Colateral'' fora de competição. Os três júris (Venezia 61º , Orizzonti e Venezia Opera Prima) cumpriram tradição protocolar e burocrática e participaram de coletiva. Ninguém disse que vai fazer nada além do que se espera de um júri. E isso é o bastante. Para desespero dos jornalistas, este é o mais extenuante fim de semana do festival, com cerca de duas dezenas de novos filmes para tentar compor um cronograma mais ou menos racional. Durante a semana, Denzel Washington, Merryl Streep e John Travolta também brilharam em Veneza divulgando novos filmes.

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