Ele só viveu 32 anos, mas quem se recorda de sua passagem musical e existencial pelos anos 1980 sabe com que velocidade, com que urgência e multiplicidade aquela década foi vivida e marcada pela sua poesia, e com que excepcional musicalidade foi interpretada. E quem não se lembra muito bem, ou sabe só de ouvir falar ou de ouvir cantar sem ligar o interprete à obra vai agora fazer e/ou retomar o contato com um dos fenômenos artísticos que representaram aquela inquieta, complicada geração de órfãos da democracia nascidos à sombra do poder da ditadura, geração embalada por loucas noites de sexo, drogas e rock and roll. No caso do jovem poeta Cazuza, um garoto que viveu intensamente cada segundo como se fosse o último, extraindo deles o sopro de vida e de criação.
O filme, assinado a quatro mãos por Sandra Werneck e Walter Carvalho, está baseado em ''Só as Mães São Felizes'', livro escrito pela jornalista Regina Echeverria em cima de depoimento confessional de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza. A narrativa cobre um período de pouco mais de dez anos da intensa vida pública e privada do poeta, compositor e cantor Cazuza. O roteiro de Fernando Bonassi e Victor Navas segue a trajetória do personagem a partir do começo de carreira no Circo Voador em 1981, passa pela fase áurea com o Barão Vermelho, focaliza a carreira-solo, os conflitos familiares e encerra com a morte em 1990, depois da luta aberta contra a Aids atitude pioneira num tempo de trevas absolutas para os soropositivos do HIV. Produzido entre outros pela Globo Filmes e Columbia Pictures, associadas a um pool de parcerias, entre elas a Petrobrás e BNDS, ''Cazuza - o Tempo Não Pára'' foi exibido na cabina da Columbia e oficialmente apresentado à imprensa nacional, no último fim de semana no Hotel Grand Hyatt em São Paulo, com direito à coletiva com atores e produtores e entrevistas com os principais nomes do elenco.
''ôCazuza...'' chega no dia 11 a um amplo circuito de salas nas capitais e principais cidades do país, com pré-estréias previstas para o feriado nacional da próxima quinta-feira. São 160 cópias, e segundo o produtor Daniel Filho, a expectativa é de que o filme seja visto por cerca de 2 milhões e 500 mil espectadores, seguindo a trilha comercialmente bem-sucedida de recentes títulos da Globo Filmes, como ''Carandiru'', ''Lisbela e o Prisioneiro'' e ''Os Normais'', campeões de bilheteria no ano passado. ''Cazuza...'' custou R$ 6 milhões, e a parceria com a Columbia trouxe de aporte outros R$ 2 milhões para comercialização.
''Algumas pessoas acharam que o projeto era um tanto precoce, mas outros consideraram que era relevante imediatamente'', afirma um confiante Daniel Filho, para quem ''Cazuza...'' já é um projeto vitorioso. Opinião de resto prontamente endossada pelo entusiasmo dos principais envolvidos na produção, que no fim de semana viram pela primeira vez o filme pronto, pouco antes da entrevista coletiva. Dos diretores à produção musical e ao elenco, todos dividem a mesma impressão de que a história do compositor está chegando às telas no tempo certo.
Tempo, aliás, é a palavra-chave para situar não apenas a época para o surgimento desta cinebiografia, mas a chamada ''atitude Cazuza'' incorporada por todos, particularmente pelo ator Daniel de Oliveira, que não deixa por menos: ''Eu não quis interpretar o Cazuza. Eu quis viver o Cazuza''. Ele não apenas incorporou o personagem fisicamente emagreceu 12 quilos para ver o Cazuza terminal mas se preparou para viver a vida intensamente na preparação e durante as filmagens, chegando a alugar um apartamento por um ano no baixo Leblon, território por excelência do cantor.
''O filme é um musical, não no sentido hollywoodiano, mas porque está impregnado pela música que foi a marca registrada do Cazuza'', acrescenta Daniel Filho. A opinião é aprovada pelo produtor Guto Graça Mello, responsável pelo minucioso trabalho de ''fusão'' das vozes de Cazuza e de Daniel de Oliveira, que também canta no filme. A idéia de tecnicamente ''sujar'' um pouco as vozes para que ficassem mais parecidas teve registro semelhante no processo de captação das imagens. Filmado em Super 16mm e ampliado para 35mm, ''o resultado é não convencional, propositalmente sujo, granulado, câmera sempre na mão para dar o sentido de urgência que queríamos para contar a história não menos urgente daqueles anos loucos e radicais vividos noite e dia pelo Cazuza'', como explica Walter Carvalho, o mais assediado e premiado diretor brasileiro de fotografia na atualidade.
Marieta Severo vive Lucinha Araújo, mãe de Cazuza. Para a atriz, este é ''um filme muito necessário, e por duas lições que é possível tirar dele: primeiro, pelo valor da verdade; segundo, porque ele ensina que é possível transformar a dor maior do ser humano em amor, em doação''. Para Lucinha Araújo, que acompanhou de perto as filmagens, a emoção foi constante, as lágrimas também, as lembranças estavam por toda parte. Até sábado último, ela já tinha visto o filme oito vezes, e diz que com certeza vai ver outras mais. Para Lucinha, presidente da Sociedade Viva Cazuza, que dá assistência médica, psicológica e social a crianças soropositivas, o filme não apenas apresenta o talento de Cazuza para esta geração,mas também transmite o exemplo para milhões de portadores do HIV: ''Ele foi de uma coragem extraordinária, numa época em que soropositivo não passava de dois anos. Eu não sei se teria a coragem dele. Nunca ouvi uma queixa, uma revolta. A questão das drogas é irrelevante. Acho que o filme é muito sensível a isso tudo''.
O jornalista viajou a São Paulo a convite da produção do filme

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