Cinema brasileiro já teve boas produções
São Paulo, 01 (AE) - O cinema brasileiro não tem se omitido sobre a questão ambiental. Vários dos filmes que serão exibidos em Goiás tratam do tema. E o fazem de maneira bem interessante, escapando àquela pecha de chatice que ainda cerca esse tipo de produção. Um exemplo acabado dessa forma de unir o útil ao agradável é o documentário do paulista Ricardo Dias, "No Rio das Amazonas".
O filme é uma visita sem preconceitos à realidade amazônica, que usa como cicerone uma das figuras mais queridas de São Paulo, o dublê de biólogo e sambista Paulo Vanzolini, humanista que se esconde atrás da ranzinzice militante. Vanzolini serve de mestre de cerimônias na apresentação de um tipo de vida completamente estranho às pessoas que vêem o filme e, em geral, moram na cidade.
Fala da integração do nativo à água, que o cerca por todos os lados e detemina seu modo de vida. Fala, também, do tempo, do famoso "tempo amazônico", com as distâncias sendo medidas por dias de viagem. "Aqui não adianta ter pressa", constata. Enfim, proporciona um mergulho amoroso naquilo que não se conhece nem se compreende - o que é uma das mais nobres funções do documentário.
O "Cineasta da Selva", de Aurélio Michiles, é outro trabalho do gênero. Procura recuperar, mesclando documentário e ficção, a obra de um dos pioneiros do cinema nacional, o português Silvino Santos. Ele veio para o Brasil, apaixonou-se pelo País e passou a registrá-lo com suas lentes. Existem imagens preciosas do Rio antigo em seus filmes. Mas, sobretudo, impressionam os registros da região amazônica. Santos era um tipo curioso. Artesão, processava as películas como podia, em uma região em que um laboratório fotográfico não passava de ficção. Usava o oco de uma árvore gigantesca para revelar seus filmes. Pioneirismo, no sentido épico do termo.
"Terra do Mar", do casal Eduardo Caron/Mirela Martinelli, registra o litoral sul do Brasil. Uma imersão temática exemplar, com o registro da fala dos personagens: dos habitantes ribeirinhos e da gente do mar. Talvez um modelo do que seja um filme realmente preservacionista. Mostrando e valorizando não apenas a natureza ameaçada, mas o homem que vive dela e, nela, encontra seu sentido de existência. Modos de vida que se poderiam chamar de artesanais e que encontram seu limite na sociedade industrial.
Ainda mais poético e alusivo é "Recife de Dentro Pra Fora", de Kátia Mesel, uma incursão pelos rios do Recife, o Capibaribe e o Beberibe, guiada pelo poema "Cão sem Plumas", de João Cabral de Mello Neto. Há algo de realmente transcendente nesse filme, que fala da natureza e do homem que a habita sem nenhum recurso retórico próprio da demagogia. Usa a força das imagens, da palavra e do som. Para descrever o que vê, mas também para falar de algo um pouco além do perceptível. O que mais desejar de um filme?





