Além do longa ''Carandiru'', de Hector Babenco, e do curta ''A Porta Aberta'', de Philippe Barcinski, ambos na competição oficial, e de outro curta, ''Castanho'', de Eduardo Valente, na Quinzena dos Realizadores, o cinema brasileiro estará representado na mostra francesa, que começa dia 14 e vai até o dia 25, por ''Filme de Amor'', de Julio Bressane, também na Quinzena, e pela atriz Clara Choveaux, brasileira que mora na França desde 2000 e é a protagonista de ''Tirésia'', de Bertrand Bonello, filme concorrente à Palma de Ouro
Em seu apartamento na République, em Paris, a brasileira Clara Choveaux teve dificuldades para encontrar um sapato que combinasse com seu vestido Galliano. Tinha uma festa para ir na última segunda-feira à noite, cujo anfitrião era ninguém menos que o presidente francês, Jacques Chirac. O dinheiro que sobrou da compra do Galliano era curto, então ela desceu às lojas populares do bairro e mandou ver num sapatinho de 20 euros para completar o ''cerimonial''.
''Ontem pela manhã bateram na porta aqui e eu fui atender'', ela contou na manhã de segunda, divertida. ''Era a polícia presidencial, com o convite para a festa, mas eu tomei um susto; pensei: putz, o que será que fiz? Será que bebi demais a noite passada?''
Vivendo há três anos em Paris, Clara conseguiu uma proeza rara: é virtual concorrente à Palma de Ouro de melhor atriz, como protagonista do filme ''Tiresia'', de Bertrand Bonello, uma atualização do clássico mito grego. E o que é melhor: tem chances reais, está no páreo. A festa a que foi era uma homenagem oficial do governo francês aos concorrentes. ''A gente está no meio dos grandes!'', festeja Clara, ainda surpresa com a velocidade dos acontecimentos.
Escolhida por Bonello, no ano passado, entre dezenas de candidatas, para interpretar o papel de um transexual, Clara é filha de um francês de Bordeaux e uma brasileira de Curitiba. Ex-modelo, foi para a França em 2000, com a cara e a coragem, para tentar a sorte, apenas com um mochila nas costas e meia centena de francos no bolso. Morou em albergue e tornou-se hostess do clube Favela Chic, onde trabalha hoje como garçonete.
O filme ''Tiresia'', uma produção franco-canadense, ainda não estreou na França. Mas a elite crítica do país, os articulistas das revistas ''Première'' e ''Cahiers du Cinema'', redigiram textos elogiosos à produção, criando grande expectativa em torno de sua repercussão. ''Estranho e palpitante'', definiu Stéphane Delorme na ''Cahiers''.
''Vai causar bastante escândalo'', prevê Clara, que atuou com uma prótese peniana e chega a cantar uma canção de ninar em português durante o filme. Há também um outro brasileiro no elenco, Thiago Teles.
''Tirésia'', seu personagem, é um exuberante transexual brasileiro que vive clandestinamente com seu irmão na periferia de Paris. É um ''sans-papier'', daqueles que a direita francesa detesta, um travesti do Bois de Bologne.
Um intelectual delirante, Terranova, decide que Tirésia representa a perfeição humana e a sequestra, mantendo-a em cárcere privado. Pouco a pouco, privado das injeções de hormônios e dos cuidados estéticos, Tirésia vai definhando, a voz vai engrossando, a barba cresce e Terranova vê cessar o encanto. Então, joga-a num terreno baldio perto de sua casa, onde Tirésia é recolhida por Anna.
O clássico grego do qual Bonello serviu-se para construir seu conceito é famoso. Tirésia era um conhecido adivinho de Tebas que, conta-se, ficou cego após ver Atena nua banhando-se na fonte Ippocrene. Sua história foi tratada por Dante Alighieri e por Ovidio. Segundo narrou Ovidio, em ''Metamorfose III'', ao ver duas serpentes copulando, Tirésia mata a fêmea com um golpe e é transformada em mulher. Após sete anos, mata a serpente macho e readquire o semblante masculino.
Depois dessa dupla transformação, perguntam a Tirésia em qual daqueles papéis ela provou maior prazer no amor, se no homem ou na mulher. Sua resposta deixou Era indignada, mas agradou a Zeus, que lhe deu o dom da predição, da vidência, o qual Tirésia usou largamente na guerra que opôs os 7 príncipes gregos em Tebas.
O diretor, Bonello, chegou a pensar exclusivamente num homem para o papel de Tirésia, mas optou pela solução mais difícil: dois atores, um homem e uma mulher (o homem é Laurent Lucas), a mulher fazendo o papel do homem. E ousou, escolhendo uma atriz não-profissional. ''Em geral, é comum homem fazer o papel de travesti, mas mulher é raro'', considera Clara.
Bonello se sujeitou a escolhas delicadas para construir sua atualização do mito, uma história que segundo contou , lhe foi relatada por um amigo, Luca Fazzi, que a viu num sonho. Ele tinha só 24 anos na época, e a história o ''perseguiu'' durante anos. ''Era uma verdadeira história de cinema, bastante diferente das que eu fui capaz de escrever. A história me perseguiu e cada vez que eu chegava perto do sonho original, tudo se dissolvia.''
Clara já tinha feito uma ponta no filme anterior de Bonello, ''O Pornógrafo'' (2001), enfrentando o desafio de dividir a cena com um mito do cinema francês, o veterano Jean-Pierre Léaud. ''Todo mundo diz que ele é difícil, mas achei um doce, além de um artista fenomenal'', ela contou.
Modelo revelada ainda adolescente no primeiro concurso The Look of the Year, numa acirrada competição no Méditerranée Rio das Pedras, Clara Choveaux trabalhou muito tempo no Brasil desfilando. Viveu muitos anos em São Paulo, onde tem uma legião de amigos e onde gastou boas noitadas dançando no clubinho A Torre, na Vila Madalena.
Em Paris, apesar de já ter um agente e propostas para novas produções cinematográficas, ela continua trabalhando como garçonete. ''No fim do mês, na hora de pagar as contas, é que a gente sabe da realidade'', ela diz, sempre em tom de galhofa. Raçuda, ela parece não temer nada. Ou quase nada: ''Agora, eu confesso que tenho um pouco de medo dos diretores de cinema.''

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