Até agora 2008 tem dado sorte ao cinema brasileiro no exterior. Depois do Urso de Ouro em Berlim para ''Tropa de Elite'', o Festival de Cannes que começa hoje foi generoso com a cinematografia sul-americana, depois de um bom período privilegiando outros continentes - a Ásia especialmente, sempre queridinha dos maiores festivais do mundo, especialmente Cannes e Veneza, está em discreto terceiro plano nesta edição.
Na disputa pela Palma de Ouro, ''Cegueira'', baseado em romance alegórico do Nobel José Saramago e dirigido por Fernando Meirelles, foi escolhido para abrir a principal seleção. O filme de Meirelles, com elenco internacional formado entre outros por Gael Garcia Bernal, Mark Ruffalo, Julianne Moore e Danny Glover, conta a história da misteriosa e súbita cegueira que acomete os habitantes de uma cidade, à exceção do personagem de Moore, mulher do médico vivido por Ruffalo. Meirelles já adiantou que ''Cegueira'' não é o tipo ideal de filme para uma jornada festiva de abertura. É esperar para ver.
Walter Salles e Daniela Thomas, dupla novamente reunida depois de ''Terra Estrangeira'' (1995), assinam outro trunfo brasileiro na competitiva: ''Linha de Passe''. E na importante manifestação paralela Um Certo Olhar, considerada a mostra que descobre os talentos, quem ganhou espaço foi o longa de estréia do ator Matheus Nachtergaele com ''A Festa da Menina Morta''. Nesta mesma seção aparece ainda ''Afterschool'', do diretor brasileiro-americano Antonio Campos.
Os argentinos também correm atrás da Palma com dois títulos: ''Leonera'' e ''La Mujer sin Cabeza'', respectivamente de Pablo Trapero e Lucrecia Martel (a única mulher entre os concorrentes ao prêmio máximo de Cannes), jovens autores já chancelados pelo circuito internacional de festivais. Outros latinos estão presentes nas seleções paralelas da Quinzena dos Realizadores e na Semana da Crítica, dois tradicionais e sempre muito concorridos redutos cult. Só na Quinzena estão cinco títulos, entre longas e curtas. São filmes do Brasil, Uruguai, Chile, Argentina e México, demonstrando o bom momento da produção, aquela autoral, bem mais independente e por isso quase à margem da indústria.
Mas para não fugir da tendência dominante nas feiras de novidades que são os festivais internacionais, a curadoria da seleção de Cannes 2008 tratou de respeitar o delicado equilíbrio entre cinema de autor e glamour, entre grandes nomes e novos talentos. ''O processo de seleção foi muito lento e complexo, mas ao final a programação é muito atraente'', diz o delegado geral do festival, Thierry Frémaux. ''Decidimos mostrar menos filmes, a fim de respaldar melhor os que selecionamos'', afirma por sua vez o veterano presidente do festival, Gilles Jacob. São 54 filmes selecionados de 31 países, extraídos de um total de 1.702 títulos de 96 países.
Além da latinidade americana, Cannes está marcado este ano pela confirmação da vitalidade criativa que vive o cinema americano - filmes de Clint Eastwood (um thriller com Angelina Jolie), Steven Sorderbergh (uma biografia monumental de Che Guevara com Benicio Del Toro) e Charlie Kauffman -; por uma sensível perda de espaço do cinema oriental (salvo exceções de peso como filmes de Jia Zhangh Ke e Eric Khoo) e pela força de um certo cinema de autor europeu, resistente e sempre muito reverenciado (Wim Wenders, os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, Atom Egoyan, um trio de franceses a rigor: Arnaud Desplechin, Philippe Garrel e Laurent Cantet e os italianos ).
Há muitos primeiros filmes selecionados, o que confirma a sempre presente busca do festival por novas tendências, pela originalidade de propostas, pela ousadia em abrir caminhos estéticos. Pesando certas ausências carismáticas e ''tão da casa'' como David Lynch, Gus Van Sant e os irmãos Coen (vão inaugurar Veneza com uma comédia dramática), a seleção parece querer distância de radicalismos, ao mesmo tempo que busca uma autoria prestigiosa mas de mais amplo espectro, talvez com maior adesão de público. Não resta dúvida de que este é um certame plural e muito rico em alternativas.
No segmento festa, obviamente fora de competição e catalogados como eventos especiais, os fogos de artifício vão para Steven Spielberg e Indiana Jones e para a animação ''Kung Fu Panda''. Woody Allen, como sempre, deve causar frenesi com seu novo título, ''Vicky Cristina Barcelona'', sua mais recente obra européia.
Quarenta anos depois das turbulências que abortaram o 21º Festival de Cannes, a programação incluiu na mostra paralela ''Cannes Classics'' alguns dos títulos da seleção de 1968 que nunca chegaram a ser exibidos. O tributo abre com ''Peppermint Frappé'', com a presença do diretor Carlos Saura - a projeção do filme foi na época interrompida pelos ''rebeldes desordeiros'' François Truffaut e Jean Luc Godard... Seguem ''24 Horas na Vida de uma Mulher'', de Dominique Delouche, ''Quatro Devem Morrer'', de Peter Collinson, ''Je T'Aime, Je T'Aime'', de Alain Resnais, ''Ana Karenina'', de Alexandre Zarkhi, assim como ''13 Dias na França'', de Claude Lelouch.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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