Wong Kar-Wai é o cineasta contemporâneo mais significativo de Hong Kong, e um dos grandes inovadores e renovadores da cinematografia mundial nos últimos tempos. Não por acaso ele abre oficialmente, no próximo dia 16, o 60º Festival de Cannes, competindo com ''The Blueberry Nights'', seu primeiro filme falado em inglês. Em homenagem a ele, o Cine-Tour/UEL programou para este mês um ciclo reunindo quatro de seus filmes mais importantes, três deles ainda dos anos 1990 e inéditos em Londrina.
A proposta estética de seus longas-metragens, dinâmica, ágil, vertiginosa, alterou as regras da linha narrativa convencional para sempre. Contínuas rupturas do eixo cinematográfico, sem desorientar o espectador, talvez sejam somente o começo de conversa para detalhar e compreender sua grande habilidade técnica. Planos-sequência distantes, escondidos, percorrem o caminho traçado por mulheres e homens solitários, sempre em busca de alguém novo para conhecer. Histórias de amor impossível exprimem os sentidos de cada um de seus personagens, fio condutor de alguns de seus filmes mais importantes.
''Anjos Caídos''(1995), quinto longa de sua curta mas exuberante e experimental filmografia já é um clássico do cinema atual. É sobre conflitos nas relações pessoais, quando se descobre os diferentes sentimentos que as altera e motiva. Filme imprescindível para qualquer espectador que aprecia um cinema que mobiliza os sentidos, ''Anjos Caídos'' ilustra o empenho de Wong Kar-Wai quanto à comunicação e as maneiras de mantê-la.
Conta a história de um assassino profissional que, à noite, ronda pelas estranhas e excitantes ruas de Hong Kong. Ele mantém vinculo de trabalho com uma bela mulher , mas pretende dar novo rumo à sua vida. A esta história se unem vários personagens que narram também suas experiências. São todos seres complexo, bizarros, e sobretudo sobreviventes solitários da vida noturna.
Com a intenção de resgatar cada instante e cada sensação dos personagens, ''Anjos Caídos'' recorre à câmara lenta para entregar imagens de grande beleza visual. As diferentes luzes que se convertem em apenas uma dentro do túnel, ou a fumaça do cigarro que desaparece lentamente sobre a moto em movimento são somente algumas cenas inesquecíveis que resumem, em final emocionante e melancólico, uma reflexão sobre as relações e as dificuldades para mantê-las. Nota-se aqui o resultado da colaboração continua do iluminador australiano Christopher Doyle, que em sintonia com Kar-Wai conseguiu criar a composição perfeita entre o olhar experimental e a excelência técnica, demonstradas em cada filme.
Talvez se possa criticar Wong Kar Wai pelo excessivo uso da técnica do videoclipe, empregada para enfatizar sensações dos personagens. Mas é este modo de fazer, e também a montagem acelerada e a utilização da música que motiva estes personagens e permite que eles se lembrem de quem são, bem como possam recriar e reinterpretar suas próprias histórias.
Além de ''Anjos Caídos'', o ciclo dedicado ao diretor nas próximas três semanas vai exibir ''Amores Expressos'', ''Happy Togheter/Felizes Juntos'' e a reprise de ''2046''.

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