CINEMA & MÚSICA - João Estrella, agora na música
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Bruna Fioreti<br> Agência Estado 
João Guilherme Estrella, 46 anos, redirecionou a vocação boêmia retratada no longa ''Meu Nome Não é Johnny'' para, enfim, realizar o sonho de lançar um CD: ''Meu Nome é João Estrella'', que chega às lojas na próxima quinta-feira. Um dos singles está na trilha sonora da novela ''Beleza Pura'', que estreou segunda-feira passada, na ''Globo''.
O João da vida real passou a ministrar palestras e deixou um pouco de lado a carreira de produtor iniciada após sua saída da prisão, em 1997, depois de ficar dois anos encarcerado. Assumiu o vocal e compôs sozinho sete das dez músicas do álbum, três delas ainda na carceragem.
Sem fugir à norma de escancarar a vida ao público, volta a fazer referências ao passado e coloca na dedicatória do disco o nome do pai e o da juíza Marilena Soares Reis Franco, responsável por sua condenação por tráfico de drogas.
O CD é baseado no som dos anos 80?
João Guilherme Estrella- Minhas referências são dos anos 80 e 90, e até coisas mais antigas e superatuais ainda. Mas tentamos trazer um ar mais moderno, algumas influências eletrônicas...
Por que as canções que você fez antes da prisão ficaram esquecidas?
Estrella - Ainda preciso olhar melhor o material que fiz antes de ir preso, refazer algumas coisas. Vou dar uma pesquisada para fazer o segundo disco. Foi na prisão que tive uma avalanche criativa. E houve muita coisa boa depois também. Essa música que está na novela, ''Madrugada'', por exemplo, foi feita à noite. Eu já tinha nove prontas, faltava escolher uma e comecei a tocar, levei o som lá no estúdio, o cara gostou e fizemos a letra. Varei a madrugada fazendo a letra , porque tinha de entregar o disco e estava muito em cima da hora.
Como sua música foi parar na novela da Globo?
A gravadora negociou com o Mariozinho Rocha (responsável pelas trilhas sonoras) em uma reunião e eles acabaram escolhendo essa música. Incrível. As coisas, de uns anos pra cá, estão galopando assim...
É uma avalanche de sorte?
É, eu sempre tive uma avalanche de sorte. É estranho falar isso tendo sido preso, mas mesmo lá dentro tive vários momentos de sorte, de poder ter sido morto e não ter sido. Sobreviver, evoluir e compor. Tem duas músicas e meia que fiz lá dentro que estão no disco. Tenho muita energia, mas atirava para todo lado. Quando comecei a focar mais, as coisas começaram a dar certo.
Você já passou a viver de música depois da prisão?
Antes de ser preso, vivi de música por dois anos, quando morei no sul da Bahia, aquela coisa de bar. Também já tive uma banda com o Rodriguinho (Rodrigo Santos), do Barão, e o Marcelo Serrado. Não rolou, a banda acabou e aí fui fazer um monte de merda. Quando saí (da prisão), comecei a trabalhar com produtoras, produzindo happy hour em shopping, bem ralação. Aos poucos, surgiram oportunidades de produzir shows maiores (como o dos ''Paralamas do Sucesso'').
E agora começa carreira nova.
Depois de fazer produção, vou para o palco. Aí, quero ver no que vai dar.
Depois do sucesso do filme, como pensa em consolidar sua banda?
Manter-se é mais difícil. Se acontecer do disco dar certo, a cobrança será maior. Vou ter que me superar. Eu sempre quis fazer isso. Mas você tem que trabalhar, ganhar grana, batalhar para poder se dedicar ao que você ama. Eu gosto de produção, porque é ligada à música. Mas gosto mesmo é de cantar, compor. Com as coisas andando bem, terei tempo para me dedicar a isso.
Deve estar difícil ter tempo agora, com o CD, as palestras...
Palestra é uma coisa que pretendo continuar fazendo, com certeza. A história toda tem também um objetivo, pode ajudar um monte de gente. Já dei muitas palestras gratuitas, mas agora estou cobrando uma graninha (cerca de R$ 5 mil).
É uma palestra antidrogas?
Não é uma palestra antidrogas. Até porque a história faz com que as pessoas consigam falar do assunto de forma mais aberta. Então, isso funciona muito mais. Sem muito moralismo, sem tabus, falando de verdade sobre o assunto. Não é uma coisa messiânica: ''Estou aqui como um apóstolo antidrogas''. Nada disso. Até porque não sou anti nada. Acho que as pessoas devem começar a se conhecer, saber até onde devem ir. Aconselho a molecada, principalmente, a não experimentar, porque pode se tornar um problema. É um debate.
Não teme que a sua figura na música associe este meio com um ambiente em que muita gente usa drogas?
Acho que as drogas estão em qualquer lugar. Antigamente, o artista, o surfista eram ''vagabundos''. Vendiam milhões de discos, mas eram os ''à toa''. E dá notícia, né? Você vê, operador da bolsa morrer de overdose não dá notícia. E morre. Tem muita gente no meio artístico que já está muito mais centrada em relação a isso, que não está usando. Obviamente, em qualquer área, sempre vai ter viciado.
Então isso não o incomoda?
Nada me incomoda. Depois do tanto que me expus, não tem muita coisa para me incomodar. Já tive debates poderosos, com 500 pessoas e juízes presentes. Bato de frente, sou aplaudido de pé, vaiado...
Não está claro no filme: você teve crise de abstinência na prisão?
Devo ter tido, mas, se tive, acho que nem percebi. Era tanta gente numa cela, umas 150 pessoas, quebra-pau todo dia, não dava para me concentrar em nada. O filme mostra um pouco isso, mas não muito.
Mas gostou do resultado?
Gostei muito, muito.
E Selton Mello como João Estrella?
Virei amigo dele.


