CINEMA- Indicação de 'Olga' não surpreende
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de setembro de 2004
Luiz Zanin Oricchio<br> Agência Estado 
A indicação de ''Olga'' para disputar uma vaga no Oscar 2005, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, era mais ou menos esperada. Claro, a comissão poderia ter ousado e escolhido, digamos, ''Cazuza - o Tempo não Pára'', que é também um filme popular, com um adicional de autenticidade que falta a essa visão romanceada da atuação da comunista Olga Benário Prestes. Poderia ter escolhido ''Redentor'', ou ''Pelé Eterno'', ou ''Narradores de Javé'', ou ...
Acontece que essas comissões (o leitor perdoe a confissão: já integrei uma delas) entra com uma orientação explícita ou implícita muito clara - vamos tentar adivinhar qual filme irá agradar mais aos ''velhinhos da Academia''. É assim mesmo que nos referimos a eles. Supomos, com ou sem razão, uma gerontocracia hollywoodiana, ociosa, um tanto senil, sensível a histórias edificantes, a lágrimas, a bons sentimentos de superfície, enfim, a tudo aquilo que se espera em um bom ''filme de arte'', de qualidade, aqueles para toda a família. Nada de escândalo, nada de escatologia, nem nada de muito profundo. Apenas um verniz ''artístico'', que salve as aparências nesse mundo de cinema comercial, mas não incomode a ninguém. ''Olga'', enfim.
Se o que supomos for verdade, o projeto de Jayme Monjardim vem talhado para o sucesso. Edulcorando e, sobretudo, despolitizando a história de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes, colocando a História (com agá maiúsculo) brasileira a serviço de sua teledramaturgia lacrimogênea, Monjardim chegou lá. Ganhou o público e agora vai disputar uma das cinco vagas para finalista do Oscar. Como andou declarando que não liga a mínima para a opinião da crítica, nem vai dar bola a quem faça restrições a essa indicação. E tomara consiga uma das cinco vagas, porque isso será bom para o cinema brasileiro, ou pelo menos assim reza o mito (não declarado, também) de que só conseguiremos a nossa carta de cidadania na cinematografia global quando trouxermos para casa uma estatueta dourada dos Estados Unidos.
No entanto, essa prática de adivinhar o que desejam os acadêmicos não tem dado certo nos últimos anos. E nem encontra amparo na história da premiação. Afinal, diretores tão autorais como Fellini e Bergman, para ficar em dois mestres, ganharam seus prêmios com filmes sem nenhuma concessão como ''8 1/2'' e ''Fanny & Alexander''. Até prova em contrário, estamos subestimando os bons velhinhos de Hollywood. Poderíamos ter oferecido a eles coisa melhor.


