É a mostra do glamour, mas também da realidade mais longínqua e complexa. É a vitrine de astros e estrelas muito amados, mas também do surgimento de perfis desconhecidos em busca de um lugar ao sol. É a hora do cinema autoral produzido com recursos discretos, mas também de produções suntuosas que aproveitam os holofotes mediáticos. É a volta dos italianos ao circuito de qualidade, mas é a ausência da América Latina. As homenagens não faltam, e as mais comoventes são as dirigidas ao passado de ouro do cinema doméstico, o fértil período compreendido entre 1945 e 1975.
Veneza, ano 60, é uma enorme promessa para se ganhar as apostas que Cannes perdeu em maio. Porque, como afirmaram o diretor Moritz de Hadeln e os membros da comissão de seleção, foi uma boa colheita esta que apresenta seus frutos a partir de hoje, na abertura oficial na Sala Grande com a nova comédia de Woody Allen, ''Anything Else'', com o próprio já aqui na cidade e pela primeira vez em carne e osso no festival. São duas mostras competitivas, ''Venezia-60'', e ''Controcorrente'', esta de configuração digamos, mais arrojada.
Os 60 anos comemorados são na verdade controvertidos. Calculando as edições canceladas pela Segunda Guerra Mundial ou por movimentos de contestação, ou ainda pela avaliação da própria Biennale, que celebrou 50 anos em 1982, os 60 poderiam ser pouco mais ou pouco menos. Não importa. Vale a celebração desta que é a mais antiga mostra cinematográfica do mundo e referencial obrigatório para demonstração, oferta e avaliação de novas tendências.
Allen é apenas a primeira celebridade hospedada pelo festival, ao lado de Christina Ricci. Na semana, o tempo esquenta ainda mais se isso ainda for possível nesta fornalha umedecida pela brisa adriática, que gruda nas pessoas aquilo que no corpo já está ensopado. Antonio Banderas e Salma Hayek chegam com o diretor Robert Rodriguez para apresentar ''Once Upon a Time in México'', fora de concurso. Nada mal para os paparazzi também no sábado: Nicole Kidman, Anthony Hopkins e Isabela Rosselini desfilam pelo Lido.
E por aí vai, com a passarela lotada por ricos e notáveis: Johnny Depp, Sean Penn, Omar Sharif, John Malkovich, Nathalie Baye, Nicolas Cage, Tim Robbins, Samantha Morton, Emma Thompson, Takeshi Kitano, Lars von Trier, George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Kate Hudson Glenn Close, Sean Connery, Robert Benigni, Steve Buscemi, Cate Blanchet, Maria de Medeiros.
Mas há espaço, e deve haver, claro, para os menos dotados de fama mundana. Na tradição de oferecer o chamado cinema de qualidade aquele de países de tradição e os periféricos , de resto aspiração de qualquer festival internacional que se preza, há para todos os gostos e expectativas. Histórias que vêm de países remotos, do passado conturbado das etnias e cidadanias, de traumas causados por guerra, de fraturas existenciais, das dificuldades afetivas. E na tradição da mostra veneziana, bem mais do que Cannes, neste ano já garantiram passaporte também as provocações e os escândalos, ambos com crônicas pré-anunciadas. Sexo e política devem, pela ordem, escandalizar moralistas e provocar polêmica, ideológica e/ou partidária. Filmes dos italianos Bernardo Bertolucci e Marco Bellochio, do coreano Im Sangsoo e do francês Bruno Dumont aparecem com grande potencial de combustão.

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