Walter Salles não esconde a alegria pela performance de ''Diários da Motocicleta'' no Brasil. Com apenas 68 cópias, lançado só nas principais capitais e enfrentando pesada concorrência de vampiros, lobisomens, frankensteins e tróias diversos, o filme fez mais de 200 mil espectadores em 12 dias, e já caminha para ser a produção de língua hispânica mais vista no Brasil nos últimos anos o recorde é de ''Fale com Ela'', de Pedro Almodóvar, com pouco mais de 400 mil espectadores. Independente do que ocorrer em Cannes, ''Diários'' já tem convites para vários festivais, e os lançamentos no mercado internacional já vão sendo definidos. Em toda a América Latina as estréias devem cobrir o período de junho a setembro. Nos Estados Unidos, a previsão é para 8 de outubro. E em Cuba, a data emblemática de 14 de junho, aniversário de nascimento do Che.
Sobre estar competindo em Cannes, Salles descartou qualquer expectativa. Embora tenha visto (e gostado: o diretor é de uma elegância às vezes irritante) apenas o filme de Emir Kusturica, ''A Vida é um Milagre'', acha que a seleção é muito boa. E que é evidentemente bem menos confortável estar na competição do festival do que no júri, do qual participou em 2002. Mas ele confessa que foi esta experiência coletiva, de ver e julgar filmes importantes sob a presidência de David Lynch, que o estimulou a seguir em frente na jornada de ''Diários''.
Walter Salles acaba de filmar ''Dark Water'' nos Estados Unidos, com Tim Roth no elenco, e o material filmado já está na mesa de montagem novamente nas mãos de Daniel Rezende, o premiado editor de ''Cidade de Deus''. E embora não revele absolutamente nada sobre este trabalho recém-concluído ou sobre o próximo projeto, já se sabe que ele deve voltar a filmar no Brasil, e em português, ano que vem. O título? ''Linha de Passe''. O argumento? Vida e carreira de quatro irmãos, habitantes do planeta futebol. ''O filme vai ter muito movimento, e um estilo entre documentário e ficção. É alguma coisa pela qual me interessei enquanto realizava Diários de Motocicleta''.
Ontem a organização do Festival de Cannes fez o que ninguém nunca viu antes: se desculpou formalmente com todos os participantes. É que a cópia de um dos mais aguardados concorrentes da mostra, ''2046'', do chinês Wong Kar-wai, somente deverá chegar para exibição amanhã e não hoje, como tudo estava previsto e preparado. O minucioso, perfeccionista Kar-wai, diretor de ''Amor à Flor da Pele'', passou os últimos quatro anos e meio filmando ''2046'' debaixo do maior segredo. Línguas ferinas revelaram que ainda anteontem o diretor de Hong Kong estava filmando na Tailândia. Para incluir o material neste ''2046''.

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