CINEMA - Voltam 'Babel' e as dores do mundo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de março de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
''Babel'' está de volta a partir de hoje ao circuito local (veja a programação de cinema nesta página), quase três semanas depois de discretíssima performance na noite do Oscar - de sete nominações, levou apenas um prêmio, o de trilha sonora para o argentino Gustavo Santaollala. A imprensa estrangeira que trabalha nos EUA, não infalível, mas sempre com mais tangível refinamento intelectual, tinha dado um mês antes o Globo de Ouro a este intenso drama de Alejandro González IÀárritu. Perto de ''Babel'' e sua magnitude, ''Infiltrados'' é apenas um correto filme sobre policiais corruptos e a sociedade onde é possível a existência deles.
Com três histórias dramáticas relacionadas entre si, localizadas em cinco continentes e quatro países, faladas em cinco línguas e envolvendo seis famílias, ''Babel'' trabalha conceitualmente a dor, o sentimento de culpa, a intrusão em mundos diferentes, a confusão e a incomunicabilidade. Estes sinais de identidade que moldam a personalidade do filme são os mesmos que definem o complexo, ambíguo e onipresente conceito de globalização que marca de maneira obsessiva esta inquietante primeira década do novo milênio.
IÀárritu e o roteirista Guillermo Arriaga, agora rompidos por desentendimentos irreconciliáveis - não é mesmo irônico, logo a dupla que em ''Amores Brutos'', ''21 Gramas'' e em ''Babel'' construíram a trilogia do lamento sobre perversos ruídos na comunicação entre as pessoas? -, continuam retorcendo as estruturas narrativas, os tempos, os espaços em torno de várias tragédias. A do casal americano em ônibus nos confins do Marrocos. A da garota japonesa surda-muda no Japão, no único segmento permeável a restrições. A da governanta mexicana e dos meninos perdidos na fronteira entre os dois países, a dos garotos marroquinos aterrorizados por um jogo fortuito.
Tragédias-sintoma das angústias individuais que assolam coletivamente este mundo que se define por aberrações paradoxais, como as que confrontam riqueza e pobreza extremas, ou a massificação ou o isolamento dos indivíduos. IÀárritu esgota em ''Babel'' as possibilidades combinatórias da cronologia, exigindo que o espectador reorganize o quebra-cabeças durante e após a projeção. O resultado é uma forte identificação, uma espécie de hipnose obtida por meio de uma direção tão eficaz quanto fascinante. A isto junte-se as interpretações de um elenco coral em que convivem em harmonia estrelas como Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael Garcia Bernal como desconhecidos amadores, não menos funcionais.


