CINEMA - Veneza, um festival olímpico
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de agosto de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza<br> Especial para a Folha 2 
A comparação se torna tentadora neste momento em que a pira olímpica se apaga em Atenas, ali não muito distante de Veneza. Termina uma grande competição planetária e começa esta outra. Em lugar das medalhas, Leões de Ouro. Atletas não são, mas os cineastas que foram selecionados para esta 61 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica entram na disputa e aceitam as regras para, decorrido o certame, deixar bem claro que somente alguns poucos ganharam e a maioria voltará para seus países com o consistente consolo de ter participado de um dos mais prestigiosos e badalados concursos cinematográficos do mundo.
A honra da abertura de gala do Festival de Veneza, hoje à noite, foi entregue a Steven Spielberg e Tom Hanks, a dupla do hors concours ''O Terminal'' o filme estréia dia 10 no Brasil, Londrina inclusive. É só o começo, e nem é assim tão importante. Já desde ontem à noite começou de verdade a programação que marca a estréia do novo diretor do evento, Marco Muller, crítico, produtor e animador cultural com longa e elogiada experiência de gestão à frente do Festival de Locarno. Com apenas quatro meses para preparar uma mostra que fosse o mais significativa dos últimos dez anos, como foi a ele sugerido pela nova cúpula da Biennale, Muller correu atrás do lucro artístico que o ex-diretor, Moritz de Hadeln, deixou escapar nos últimos dois anos por conta de algumas trapalhadas.
O resultado do esforço concentrado parece ter dado certo. A seção competitiva, ''Venezia 61'', alinha diversos pesos-pesados entre os 21 que assinam os filmes. Estão lá Gianni Amélio, Mike Leigh, Amos Gitai, Wim Wenders, Mira Nair, Hou Hsiao-hsien, François Ozon, Claire Denis e Alejandro Amenábar, entre outros. Mas haverá muito mais até o dia 11 porque, como se sabe, mostras como as de Veneza, Cannes e Berlim abrem estratégicos e generosos espaços paralelos para acolher material de interesse procedente de todas as partes do mundo. Este ano as comissões venezianas de seleção apreciaram 1.892 filmes. Desse total, foram selecionados 71 longas em celulóide e 19 na mostra ''Venezia Cinema Digitale''. 28 países têm filmes distribuídos pelas diversas seções. América, Europa e Ásia têm maior participação.
Muitos cinéfilos direcionam o interesse para as atrações ''Fuori Concorso''. Sabem que nesse e em outros nichos colaterais sempre há obras de alguns criadores consagrados que já não se ligam em competição. Também aqui Veneza-2004 fez a coisa certa: o muito esperado ''Eros'', realização tríplice a cargo de Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-wai; os mais recentes trabalhos de Claude Chabrol (''La Demoiselle d'Honneur''), Jonathan Demme (''The Manchurian Candidate'') , Michael Mann (o ótimo ''Colateral'', já em exibição no Brasil), Michael Radford (''O Mercador de Veneza''), o inesgotável Manoel de Oliveira (''O Quinto Império'') e Spike Lee (''She Hate Me'').
Com certeza mais pérolas devem ser encontradas nas seções ''Venezia Orizzonti'' (a réplica italiana do ''Certain Regard'' de Cannes), ''Venezia Mezzanotte'' e ''Settimana della Critica'', redutos da experimentação, ousadia, inquietação e maior liberdade criativa. Nenhum título brasileiro foi selecionado para qualquer das mostras, e o cinema latino-americano está representado por cinco filmes argentinos (nenhum em concurso) e um colombiano.
O que parece particularmente curioso é que o pacote deste Festival de Veneza preparado por Marco Muller (que tem mãe brasileira e fala também português, entre uma dúzia de outras línguas) privilegiou o aporte de qualidade, virtualmente garantida tanto pelo segmento europeu como pelo entorno hollywoodiano. E é evidente que, por conta disso, a ''tropa estelar'' norte-americana composta por algumas dezenas de nomes consagrados já garantiu presença no tapete vermelho do Lido. É bom não esquecer que Veneza representa também uma espécie de primeiro teste para a corrida do Oscar, promovendo premières mundiais de produções que ambicionam a estatueta.
O júri é presidido pelo diretor inglês John Boorman e conta ainda com as atrizes Helen Mirren e Scarlett Johansson, os diretores Dusan Makavejev, Spike Lee, Wolfgang Becker e Mimmo Calopresti, a produtora Xu Feng e o montador Pietro Scalia. No capítulo homenagens, os veteranos Manoel de Oliveira e Stanley Donen vão receber Leões de Ouro especiais pelas carreiras. E como evento histórico, uma retrospectiva de resgate: ''A História Secreta do Cinema Italiano'', com 25 filmes ''esquecidos'' e que em seu tempo tiveram tanto dimensão espetacular como foram inovadores. Padrinhos desta mostra: Quentin Tarantino e Joe Dante.


