Com tantos e inestimáveis patrimônios da humanidade a céu aberto, com as repetidas ameaças de Bin Laden e com tamanha teimosia de Silvio Berlusconi, negando-se a retirar suas tropas do Iraque, até que demorou para a Biennale de Veneza tomar providências quanto à segurança no âmbito do festival de cinema, coisa que Cannes vem cuidando com muito mais zelo e há muito mais tempo.
Para esta 62 edição da Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica que começa oficialmente hoje à noite, foram anunciadas medidas rígidas para o acesso a todas as dependências cinéfilas na ilha do Lido detector de metais e revista na entrada das sete salas de projeção, sala de imprensa, auditório de coletivas, hotéis e espaços de convivência dos festivalieri.
Não é, porém, a única novidade para este ano. Vitimado em 2004 por um caótico e constrangedor overbooking, com 133 filmes que deixaram os jornalistas em precário estado físico e mental, o Festival de Veneza foi redimensionado por seu diretor, o suíço Marco Muller, recentemente confirmado para dirigir mais três festivais.
Cumprindo a promessa que fez logo após a equivocada e risível cerimônia de encerramento, ele entrega a partir de hoje uma mostra enxuta, com apenas 54 títulos de 20 países pinçados de um total de 1100 longas e 800 curtas metragens , sem que aparentemente o cinema saia perdendo. Para Muller, a curadoria do festival elaborou uma seleção com ''o objetivo de consolidar os grandes diretores, mas por outro lado também ajudar e descobrir novos talentos do cinema contemporâneo''. Ele ainda destacou o tom ''plural'' desta edição, afirmando que se buscou a ''autenticidade'' das obras, evitando-se a homogeneidade. Disse ele que os filmes do programa buscam transmitir ôa liberdade narrativa, o esplendor da forma e a contínua discussão sobre a idéia da ficção''. Mas estranhos são os critérios de Muller e seus selecionadores.
América do Sul, Oriente Médio e leste europeu foram quase totalmente esquecidos desta vez, enquanto os Estados Unidos aparecem com o maior número de entradas nas três seções oficiais do festival a principal, Venezia 62, Orizzonti e Fuori Concorso, treze ao todo.
Um único brasileiro foi selecionado: ''Árido Movie'', do pernambucano Lírio Ferreira (''Baile Perfumado''), mas na seção Orizzonti, que não disputa o Leão de Ouro. Sobre a ausência de mais filmes do Brasil, Muller disse ao site de notícias da BBC que o cinema brasileiro é brasileiro demais. Ele disse textualmente: ''O problema é que os bons filmes falam dos problemas do Brasil de uma forma tão brasileira que os estrangeiros não entendem''. O rótulo de brasileiros demais foi dado a filmes de Andrucha Waddington, Sergio Bianchi e Beto Brant, recusados pelo comitê de seleção.
Quem está na briga pelo troféu máximo é o diretor Fernando Meirelles, que colhe os frutos do sucesso mundial de ''Cidade de Deus''. Ele dirige ''O Fiel Jardineiro'', de bandeira inglesa, alemã e africana. Kátia Lund, sua parceira em ''Cidade de Deus'', também faz sua estréia internacional. Ela está aqui ''hors concours'' com um dos curtas metragens do projeto coletivo ''All the Invisible Children'', ao lado de Emir Kusturica, Ridley Scott e John Woo, entre outros.
O olhar carinhoso de Veneza mirando as cinematografias orientais não é novo. Os festivais europeus, aliás, têm um fascínio permanente com ''o outro lado do mundo'', e não passa ano sem que as seleções oficiais não abriguem títulos chineses, japoneses, coreanos, iranianos, indianos. De modo geral justificam-se estas portas abertas: raros os filmes dessas nacionalidades que decepcionam, e com frequência eles saem de Berlim, Cannes ou Veneza recompensados com prêmios importantes. Sob a batuta de Muller a aproximação foi ainda maior ele fala chinês fluentemente e é autor de vários livros sobre o cinema na China.
Agora em 2005 não foi diferente, e além de onze filmes japoneses, chineses e coreanos para as seleções oficiais, o festival vai homenagear o mestre japonês da animação, Hayao Miyazaki, com o Leão de Ouro à Carreira. Mas falta ainda: como grande evento paralelo foi programada a mostra ''História Secreta do Cinema Asiático'', com dezenas de clássicos chineses e japoneses agora repostos em cópias restauradas. Tem mais: o filme que abre hoje o festival em noite de longos e black tie é o chinês ''Seven Swords'', épico de espadachim dirigido por Tsui Hark. E quem encerra oficialmente o programa, dia 10, é outro chinês, ''Perhaps Love'', de Peter Ho-Sun. E a grande revelação final: antecipa-se que o ''filme-surpresa'' do festival será o ultimo Takeshi Kitano, outro queridinho dos grandes festivais.
É expressiva também a participação dos donos da casa com dez filmes (metade em co-produção) de alguns dos mais destacados diretores italianos do momento, como Pupi Avati e Cristina Comencini. Digna de registro é a restauração de uma obra mítica como o ''Casanova'' de Fellini, realizado há quase 30 anos. O filme será revisto ao lado da nova versão de Lasse Hallstrom, filmado inteiramente em Veneza.
Como sempre o desfile de famosos deverá ser incessante durante os 11 dias de festival, estando desde já garantido o frisson da tietagem. Difícil é saber quem não pisará o tapete vermelho estendido à frente do tradicional Palazzo Del Cinema. Que, aliás, vai passar por reforma ambiciosa e radical, abrigando em breve a maior sala de cinema do mundo, com 2.400 lugares.


Veja lista de filmes que concorrem em Veneza no site: www.bonde.com.br/folhadelondrina

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