A 64 edição do Festival de Veneza foi aberta ontem com aquelas duas famosas velas acesas, uma a Deus, outra ao diabo. O diretor da mostra, o suíço-brasileiro Marco Muller, é mesmo um maquiavélico orquestrador/conciliador de interesses. Este ano vence seu mandato de quatro edições, com tudo muito bem amarrado para ser - e certamente será - renovado por mais quatro. Está posta, e bem posta, a simbiose entre virtudes intrínsecas e amenidades explícitas, leia-se o culto ao cérebro e a adulação ao espetáculo. Na largada da festa, o melhor exemplo desta ambiguidade que, de resto, se firma também nas demais vitrines internacionais do cinema.
Não deixa de ser sintomático: a primeira logomarca a bater na tela em Veneza ontem cedo, despertando de vez os jornalistas ainda cambaleantes após longas viagens, foi o da Universal, pioneira e sempre poderosa marca registrada hollywoodiana. Começa o filme. E começa bem, este ''Atonement'' (Expiação: se for mantida esta tradução no título brasileiro estará mais que adequado), adaptação do romance cult de Ian McEwan que a revista Time considera um dos 100 melhores em todos os tempos.
O argumento é uma viagem culpa adentro e ao inútil arrependimento. Inglaterra, 1935. Num dia tórrido de verão, na casa de campo da aristocrática família Thalis, uma tragédia ocorre com irreversíveis e dolorosos desdobramentos para sempre. A imaginativa e fantasiosa garota Briony, por razões que se conhecerá ao longo da história, acusa indevidamente o filho da caseira de abusar sexualmente da prima que está de visita. O rapaz e a irmã da adolescente, Cecília, estão apaixonados, mas a prisão dele e depois a guerra vão sufocar este amor e fazer com Briony tente inutilmente, pelo resto da vida, purgar sua culpa.
Até a metade, tudo é rigorosamente britânico no filme, seco, inventivo, com roteiro e direção engenhosos e interpretações precisas de um elenco onde brilham Keira Knightley (a musa de Johnny Depp em ''Piratas do Caribe'') e James McAvoy. Armadilhas e expedientes previsíveis são evitados com habilidade, sutilezas dominam a narrativa na descrição de sentimentos reprimidos, de antagonismos de classe. A direção de arte é estupenda, a trilha musical de Dario Marianelli é irretocável. Mas então...
''Atonement'' resvala na segunda metade, quando o melodrama de guerra e a revelação mais abrangente da culpa de Briony, agora uma atormentada enfermeira, se instalam pesadamente de maneira ortodoxa. É como se o aclamado estilo do escritor McEwan batesse de frente com a ficção de Danielle Steel, e desta colisão não sobrasse muita coisa. A não ser, claro, prováveis nominações ao próximo Oscar - roteiro, direção, elenco, prêmios artísticos colaterais. É justamente este meio a meio que Muller adotou como seu melhor cabo eleitoral. A crítica adora a primeira parte, o público já prefere a segunda e pronto, a fórmula vencedora está servida. E vida ainda mais longa ao mais longevo festival do mundo.
Em seguida à projeção, a entrevista coletiva com o diretor Joe Wright, o roteirista Christopher Hampton e o elenco principal foi agradável, um início ameno. Ninguém pegou pesado nos problemas da segunda parte, as qualidades foram reconhecidas e era evidente a empatia com a anoréxica Keira Knightley, o ascendente James McAvoy, a instituição Vanessa Redgrave e a revelação irlandesa de nome impronunciável, Saoirse Ronan, de 13 anos. Aliás, coletivas em Veneza sempre acabam em pizza.
Logo após, a muito concorrida coletiva do júri oficial. Explica-se: é um corpo de jurados de exceção composto exclusivamente por diretores - como este só uma vez, em 1950 -, gente inteiramente empenhada e envolvida no inteiro processo criativo de um filme. Perfilados lado a lado na mesa, o presidente Zangh Yimou e mais Paul Verhoeven, Emanuele Crialese, Alejandro Inárritu, Jane Campion, Ferzan Ozpetek e Catherine Breillat não foram além das habituais considerações de quem preza a privacidade e ética no ato de julgar colegas de profissão. Mas disseram que vão estar atentos e abertos às novidades e à ousadia autoral. Em festivais de cinema, aliás, é o mínimo que se espera.
Ontem à noite foi a estréia mundial de ''Lust, Caution'' (livremente: ''Luxúria, Atenção''), o novo Ang Lee pós Brockeback Mountain, também em competição. A expectativa era imensa.
Surpresa: o enorme aparato de segurança até o momento pegando mais leve na vigilância, com controle antes visual do que tátil. Vídeo-câmeras e olhar atento dos policias substituem, com evidentes vantagens para todos, as revistas com detector de metais.

* O jornalista viajou a Veneza a convite da organização do festival.

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