O ator, diretor, dramaturgo e escritor londrinense Mário Bortolotto sempre foi louco por cinema. Seu livro ''Gutemberg Blues'', uma coletânea de artigos para jornais publicada em 2001, traz diversos textos apaixonados sobre filmes e atores. De uns tempos para cá, porém, ele deixou de escrever sobre o assunto para se envolver diretamente com as imagens em movimento.
Nesta semana, o artista largou suas atividades em São Paulo para participar como ator convidado do longa-metragem ''Heróis da Liberdade'', que o diretor curitibano Lucas Amberg está rodando há pouco mais de um mês em Londrina. Ontem, ele gravou cenas no Bar Valentino, rebatizado para Blue Bar na película.
Seu personagem aparece escrevendo a letra de uma música e durante uma consulta a um psicólogo cuja cena foi escrita pelo próprio ator. ''Vou interpretar eu mesmo'' diz, lembrando que a tal música será incluída na trilha sonora do filme. Bortolotto conta que o roteiro original sofreu UMA modificação por causa de um choque de agenda.
''Eu ia aparecer cantando num show, acompanhado no palco pela minha banda de blues. O problema é que o baterista só poderia vir no fim de semana, quando a equipe de produção do filme estará de folga. Não deu para rolar'' explica. Esta não é a primeira vez que Bortolotto encara um set de filmagem. No longa ''O Invasor'', de Beto Brant, ele faz uma ponta na última cena.
''Não sou de aceitar essas participações. Faço quando sei que vou me divertir. Colaborei com o Beto porque ele é meu brother, e ainda me pagou só para ver o meu personagem atravessar a rua'' brinca. Convencido pelas amizades, ele participou ainda de dois curtas de Luis Montes: ''Balaio'' (adaptação de um conto de Marçal Aquino) e ''Enjaulados'', pelo qual faturou o prêmio de melhor ator no 6º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, realizado em julho do ano passado.
Também nesta semana, vai protagonizar cenas para um curta de Daniel Sabino. As incursões pela sétima arte não param aí. Sua peça ''Nossa Vida Não Vale um Chevrolet'' foi adaptada pelo diretor Reinaldo Pinheiro e o início das filmagens está previsto para abril. A principal novidade, no entanto, é que Bortolotto pretende enveredar na direção levando para trás da câmera a experiência adquirida em duas décadas na condução de peças teatrais.
''Vou comprar uma câmera digital e começar a fazer cinema. Quero chamar os amigos para atuar e para compor as trilhas sonoras. Como não tenho paciência para correr atrás de patrocínio, vou continuar no mesmo esquema independente de trabalho desenvolvido no teatro'' anuncia. O projeto inicial é levar versões de suas próprias peças para a tela.
Ele salienta que só não começou a atuar antes na área cinematográfica pela dificuldade de acesso aos meios de produção. Hoje em dia, argumenta, tudo ficou mais fácil graças à redução de custos permitida pela tecnologia digital. Acompanhando a retomada da cinematografia brasileira, o diretor do grupo Cemitério de Automóveis elogia a qualidade ''técnica'' dos novos filmes, mas critica a ''falta de ousadia'' dos cineastas.
''Existe muito ôba-ôba'' diz. ''A fotografia e o áudio evoluíram muito. Por outro lado, há carência de idéias e roteiros bons. Com algumas exceções, ninguém está arriscando. Como está entrando muito dinheiro, os diretores estão com com medo de errar. Tudo está sendo feito com base em pesquisas para ver o que pode dar certo. É que nem novela, uma coisa medida pelo ibope''.
Paralelamente às atividades ligadas ao cinema, Bortolotto segue tocando os trabalhos teatrais. Nessa temporada, planeja uma grande maratona de peças para a 3 Mostra de Teatro do Cemitério, que será realizada em maio em São Paulo. A idéia é fazer uma retrospectiva da trajetória do grupo apresentando 30 espetáculos em ordem cronológica, dos primeiros trabalhos de 1983 e 1984 às montagens recentes.
Ainda visando o evento, está previsto o lançamento de um livro contando a história da trupe gestada em Londrina. ''Ele vai incluir textos de pessoas que acompanharam nosso percurso, resgatando aventuras e encrencas vividas ao longo desses mais de 20 anos de porre'' sublinha. Não será improvável que venha à luz algum episódio ocorrido no Bar Valentino, onde ele gravou as cenas ontem de manhã e do qual foi frequentador antes de se mudar para a capital paulista em 1996.
Bortolotto indignou-se ao ser informado que o local virá abaixo em dezembro de 2005 para abrigar o estacionamento de um centro comercial. ''É uma grande sacanagem'' declarou. ''Esse bar tinha que ser tombado como Patrimônio Histórico da cidade. É um monumento da boemia. Desde que me mudei, tenho notado que os lugares mais bacanas para beber às noites e madrugadas estão fechando em Londrina. Cadê o Clube da Esquina? Cadê o Bar da Costela? Desse jeito, vai sobrar só o shopping''. O artista volta hoje para São Paulo.

mockup