É bastante improvável, embora não de todo impossível, que ''Eu Me Lembro'', o longa-metragem baiano exibido ontem à noite encerrando a faixa competitiva do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, tenha oferecido todas as qualidades de um filme de exceção, marcando aquela diferença flagrante que afinal não se registrou entre os cinco outros postulantes aos troféus Candango e à atraente premiação em dinheiro.
Assim, o que o júri oficial tem em mãos para deliberar e decidir é um painel de sortimento variado, mas não de incontestável exuberância - e isto também vale para os curtas. Os destaques óbvios entre os longas são o documentário ''À Margem do Concreto'', sobre a luta dos sem-teto pelo direito constitucional da moradia, e ''O Veneno da Madrugada'', o melhor Ruy Guerra em muitos anos. Entre estes dois deve ficar o eleito para melhor filme, e será um deslize imperdoável não atribuir também o prêmio de melhor direção ao veterano diretor moçambicano de clássicos nacionais emblemáticos como ''Os Cafajestes'' e ''Os Fuzis''.
O filme de Guerra, baseado em romance de um Gabriel Garcia Márquez ainda trabalhando com carpintaria naturalista e anterior a ''Cem Anos de Solidão'', mas já de alguma forma prenunciando certo clima, algumas tramas e alguns personagens daquela mágica Macondo, é em várias medidas o trabalho de um mestre consumado, obra com um sopro de vitalidade não exatamente comum em um realizador de 74 anos.
É uma história sobre bilhetes anônimos que contam segredos da gente de uma cidade qualquer da América Latina, anos 1950 ou 60, sempre castigada pela chuva. E sobre os novos acontecimentos a partir destas revelações. O universo sempre muito nuançado de Garcia Márquez (é a terceira visita do cineasta aos domínios do escritor) aparece inteiro na tela, embora confessadamente Ruy tenha trabalhado a adaptação com total liberdade, subvertendo a linearidade da narrativa literária e optando por uma estrutura não realista.
No filme, ele disseca a cronologia da narrativa em três tempos, recontando a mesma história, mas não se repetindo. É complexo para o espectador que elegeu a óbvia linearidade como opção de cinema, mas fascinante para quem se dispõe a participar dos planos de realidade da investigação o vivido, o contado e o imaginado.
No debate sobre ''Veneno da Madrugada'', Ruy Guerra, em intervenções tão extensas quanto ricas, foi além de argumentações momentâneas e ofereceu ao público uma densa viagem ao porões de seu processo criador. Uma aula completa, e uma profissão de fé renovada.
Quanto aos demais da seleção, o público se enterneceu com ''Depois Daquele Baile'', estréia do ator Roberto Bomtempo no longa. É uma viagem retrô aos bons sentimentos: em Belo Horizonte, três personagens na terceira idade vividos por Irene Ravache, Lima Duarte e Marcos Caruso mantêm uma relação que mescla humor, amizade e insinuações de romance. O resultado é modesto enquanto dramaturgia, mas é um filme delicado e com algum charme.
O brasiliense ''A Concepção'', de José Eduardo Belmonte, é quase desastroso. Estranhamente, apesar da aparência avangardista, com muita nudez frontal, drogas e cenas de orgia com sexo hetero e homossexual, é um filme velho enquanto proposta, uma espécie de hino desafinado à rebeldia. Grupo de jovens inadaptados e contestadores vive excessos anti-establishment, mas termina amargando a falência da utopia. Há exatos 25 anos, o cineasta Sérgio Rezende fez coisa muito melhor em ''O Sonho Não Acabou'', um retrato acidamente politizado da juventude que fenecia à sombra do poder em Brasília.
- O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Brasília.

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