CINEMA - Um Oscar com forte tempero europeu
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Parecia até uma edição qualquer do Oscar, 59 , 62 ou 71, e não o número redondo e imponente da 80. Um bocado de história, e da boa, para ser desperdiçado assim por conta da apatia, da burocracia, da falta de inteligência e de talento.
De duas uma: os roteiristas ainda estavam em greve, e todos os textos lidos pelo insosso âncora Jon Stewart, que pela segunda vez aparece pouco inspirado para conduzir a cerimônia, foram produzidos pelos office boys da Academia - sem ofensa à laboriosa categoria... Ou então o fim da greve foi decidido tão em cima da data que não houve certeza ou tempo suficiente para produzir um espetáculo melhorzinho. Melancolia (e muito tédio na madrugada), seu nome mais uma vez é Oscar!
E a vingança, que já se desenhava desde a nominação, em janeiro, veio com recorte europeu. Os quatro atores premiados são dois ingleses, um espanhol, uma francesa. ''Ratatouile'', melhor animação, foi feito nos EUA, mas alguém duvida de seu charme parisiense? A melhor trilha, a bela partitura para ''Desejo e Reparação'', é do italiano Dario Marianelli. Outros italianos, Dante Ferreti e Francesca Lo Schiavo, fizeram a direção de arte de Sweeney Todd e ganharam o único Oscar para o filme de Tim Burton. A melhor canção é do filme ''Once'', da Irlanda.
O violento e muito bom trabalho dos Coen ganhou ainda, além da estatueta de melhor filme, os prêmios para a direção fraterna, roteiro adaptado (o escritor Cormac McCarthy, na platéia, não escondia a aprovação) e melhor ator coadjuvante (Javier Bardem, a barbada da noite). A dupla Coen, que tinha apenas um Oscar por ''Fargo'', em 1996, entra para o rol dos privilegiados com três Oscars numa só noite, nas companhias ilustres de Francis Ford Coppola, Billy Wilder e James Cameron. A recompensa para os produtores de ''Onde os Fracos Não Têm Vez'' virá a partir de hoje no mercado internacional onde o filme ganha mais visibilidade. Em Londrina ele está em exibição no Catuaí.
Os outros quatro candidatos em várias categorias tiveram que dividir os prêmios, e saíram do Kodak Theatre esvaziados. ''Desejo e Reparação'' ficou com a trilha sonora original; ''Sangue Negro'' garantiu a Daniel Day-Lewis seu segundo Oscar (''Meu Pé Esquerdo'') e ''Conduta de Risco'', outro favorito que só levou uma estatueta, a de melhor atriz coadjuvante para Tilda Swinton.
''Juno'', o único dos concorrentes com renda acima de 100 milhões de dólares, recebeu o prêmio por melhor roteiro original, dado à ex-dançarina hardcore Diablo Cody - pelo ótimo trabalho na escritura do filme, esperava-se um momento de brilho e maior soltura no discurso da moça. Que acabou se rendendo à ''intensa emoção'' da hora e desfiou uma série de quase soluçantes agradecimentos. Nada mais fez do que reforçar a impressão de indigência de uma festa que transcorreu bem ao contrário de seus principais produtos: sem nenhum sangue nas veias.(Leia mais na página 2)


