CINEMA - Um filme em 'construção'
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segunda-feira, 18 de agosto de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Músicas que inspiraram filmes ou filmes que inspiraram músicas renderiam um belo tema para uma monografia acadêmica. A cineasta e produtora Natasha Mantovanni de Aquino poderá contribuir com a pesquisa com seu projeto de rodar um curta-metragem em Londrina calcado na música ''Construção'', clássico da MPB que Chico Buarque compôs em 1971.
Ela está em fase de captação de verbas depois de ter seu projeto aprovado pela Lei Rouanet, dispositivo do Ministério da Cultura que permite às empresas usarem parte do imposto de renda devido para financiamento de projetos culturais. Na condição de produtora-executiva da empreitada, ela convidou o paulista Amilcar Claro para dirigir o filme.
Amilcar já trabalhou como assistente de cineastas como Hector Babenco, Ana Carolina e Bruno Barreto. Com o documentário ''Roberto'', uma homenagem ao diretor Roberto Santos, faturou o prêmio da Crítica e o prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília. Seu último curta-metragem, ''Náufragos'', também lhe garantiu pontos no currículo conquistando 22 prêmios nacionais e internacionais, entre eles o de Melhor Filme nos festivais de Huesca (Espanha), Santiago (Chile), Cuiabá (Mato Grosso) e São Luís (Maranhão).
Natasha conta que a idéia de filmar a saga do pedreiro retratado na canção de Chico Buarque surgiu no ano passado, durante o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba, quando o músico André Moraes (filho do cineasta Geraldo Moraes) mostrou um CD de sua banda Infierno (recentemente rebatizada Hannibal) trazendo a antiga canção em roupagem ''metal''.
''O Amilcar ouviu primeiro, depois pediu para eu ouvir com a sugestão de fazermos um curta em cima da música. Eu topei na hora porque a interpretação da banda é extremamente inquieta, incômoda e cativante ao mesmo tempo'' diz. Na regravação da banda, a música começa com um arranjo acústico para violão e cello evoluindo para um tratamento de choque à base de guitarras pesadas e vocais guturais.
Segundo a produtora, o compositor aprovou a ''versão'' dos meninos: ''Ele adorou, afirmando que a música deveria originalmente ser gravada daquele jeito, com aquela sonoridade alucinatória. Quando soube do projeto do curta, achou fantástico e agilizou toda a documentação''. Natasha explica que a letra de ''Construção'' mantém a atualidade, revelando conexões com o Brasil de Lula.
''O personagem da canção é um construtor que, ao mesmo tempo, descontrói sua vida emocional. É o mesmo processo pelo qual passa o país, com a perspectiva de mudança e a reconstrução de uma nova sociedade. Na época, o Chico também passava por um momento de transição, de busca de uma nova linguagem'' salienta ela.
O curta-metragem, a exemplo da canção, tratará do dia-a-dia de gente comum. A construção, a que se refere o título e cenário principal do filme, será tratado como um espaço alegórico, local mítico onde o personagem principal luta pela sobrevivência. O filme terá dez minutos de duração. Natasha assinala que, em termos de linguagem, a proposta tende a orientar-se ''pela experimentação, investigação estética e pesquisa dramática fazendo com que essa experiência audiovisual seja, não só transformadora, mas, perturbadora e lírica, como o é a letra que o irá conduzir''.
Morando há dois anos em Londrina, a cineasta e produtora atuou como assistente da diretora Tizuka Yamazaki durante as filmagens na cidade do longa ''Gaijin 2''. Ela trabalha com cinema há oito anos. Começou a estudar sétima arte na Ryerson Polytechnic University, em Toronto, no Canadá. Hoje estuda no curso de Cinema da Univesidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.
Recentemente, foi diretora de produção do curta ''Imensidade'', do mesmo Amilcar Claro e que foi selecionado para a Mostra Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, programada para o final desse mês. Em Londrina, finaliza o curta ''Curta Vida Curta'', que dirige com a co-produção da produtora local Usina de Idéias.
O filme será inscrito no Festival do Minuto, que ocorre em novembro em São Paulo. Embora admita que a gênero permaneça excluído pelo mercado exibidor, Natasha é esperançosa. ''Há uma tentativa forte de retomar a exibição de curtas antes dos longas nas salas'' diz. Ao rodar os dois filmes (''Curta Vida Curta'' e ''Construção'') em Londrina, pretende ajudar na criação de um ambiente cinematográfico na região.
''A produção de curtas colabora para essa mentalidade. Foi o que aconteceu no Rio Grande do Sul, onde já existe um movimento vigoroso de cineastas. Se eu conseguir captar verbas na cidade, tenho a intenção de trazer muitas coisas para cá'' anuncia. Segundo ela, foi-se o tempo heróico em que bastava uma câmera na mão e uma idéia na cabeça para colocar um filme na tela.
''Hoje o cinema exige gente preparada, mão-de-obra qualificada, planejamento'' acrescenta. Para realizar o curta ''Construção'', quer captar recursos até o final desse ano e iniciar as filmagens em 2004.


