Curitiba - Tudo começou por causa de uma aposta. Se o time dele não tivesse perdido, ele não teria pintado o cabelo de loiro. Se ele não tivesse pintado o cabelo, ninguém o teria chamado de ''viado''. Se ninguém o tivesse desafiado, ele não teria matado ninguém. E se ele não tivesse atirado, a vida dele não teria mudado tanto. ''Ele'' em questão é Máiquel, personagem de Murilo Benício no filme ''O Homem do Ano'', longa de José Henrique Fonseca baseado no livro ''O Matador'' (Companhia das Letras), de Patrícia Melo. O filme estréia amanhã apenas na região centro-sul do País.
Com apenas 20 cópias lançadas no Brasil, o filme já acumula algumas premiações em festivais do exterior, como o de Melhor Filme no Festival Internacional de São Francisco 2003 e os prêmios de Melhor Filme, Diretor e Ator no Festival de Cinema Brasileiro que acontece em Miami. O longa tem alguns trunfos. O roteiro, por exemplo, é de Rubem Fonseca e o elenco reúne feras de tribos distantes, como Jorge Dória (no papel de Dr. Carvalho), Murilo Benício e Cláudia Abreu.
Cláudia, aliás, tem uma relação curiosa com o filme. Ela foi chamada pelo diretor no final da década de 90 para integrar o elenco. As filmagens atrasaram em função da dificuldade de captação de recursos e de problemas de saúde do diretor. Nesse meio tempo, Cláudia e Fonseca começaram a namorar e a atriz engravidou, motivo que levou a mais um atraso nas filmagens. Quando o longa terminou de ser rodado, Maria filha de Cláudia e Fonseca tinha apenas dois meses de idade e a atriz ainda estava amamentando. ''Se fosse outro filme não teria aceitado fazer naquele momento'', revelou Cláudia, em entrevista em Curitiba depois da exibição do filme para jornalistas, na última terça-feira.
A atriz ressalta que o filme conta uma história fantástica que despertou interesse em muita gente desde que o livro foi lançado, em 1995. O burburinho em torno da obra de Patrícia Melo foi tanto que até Murilo Benício chegou a cogitar a hipótese de comprar os direitos da história e dirigi-la, mas Fonseca chegou antes e coincidentemente chamou Benício para fazer o papel principal.
''Benício é um ator muito intuitivo que deu o tempo certo ao personagem'', derrete-se Fonseca. Ele acredita ter tido a sorte de ter encontrado em atores de escolas tão distintas, a química perfeita para o tom do filme. ''Foi uma escalação não óbvia'', salienta o diretor.
Além de Benício e Cláudia, que fazem um par não tão romântico no filme, o longa conta ainda com Natália Lage, que estréia no cinema; José Wilker (como Sílvio); Agildo Ribeiro (como Zilmar); Mariana Ximenes, como Gabriela, a filha do Dr. Carvalho; além de surpresas como Lázaro Ramos (que anda nem tinha despontado no cinema, em filmes como ''Madame Satã'' e ''Carandiru'', na época das filmagens); o músico Moska e o ator André Gonçalves, apenas para citar alguns nomes do afiado elenco.
A história pode ser interpretada de várias maneiras, mas o diretor aponta um só caminho para os espectadores: ''É um filme sobre o destino'', enfatiza. ''Se ele não tivesse feito a aposta, nada daquilo teria acontecido com ele. Foi uma decisão que mudou a vida do personagem'', conta. Mas o filme, assim como salienta o diretor, tem também vários aspectos sociológicos.
Máiquel, o personagem de Benício, é um jovem sem emprego, sem dinheiro e sem perspectiva (qualquer semelhança com milhares de brasileiros não terá sido mera coincidência). Sua vida muda no dia em que ele resolve, por impulso, matar Suel (Wagner Moura). Enquanto decide se entregar para polícia ou foge do bairro, Máiquel vê sua vida tomar um novo rumo. Começa a ser respeitado pela comunidade, ganhar presentes insólitos e ganhar agradecimentos inusitados por ter livrado o bairro de um marginal.
Nesse meio tempo, Cledir (Cláudia Abreu) engravida e os dois marcam casamento aguçando o desejo de Máiquel de ter uma vida honesta. Só que essa é uma história sobre destino e, como tal, as coisas nunca acontecem como os personagens desejam. A reviravolta é tanta que remete ao espectador a uma realidade bastante peculiar. A insegurança insuportável que a vida urbana concede aos seus personagens de carne e osso. O medo da violência e a prisão domiciliar forçada por causa dessa situação que não recua em nenhum canto do mundo.
Enfim, ''O Homem do Ano'' não é um filme palatável e talvez seja esse o seu maior mérito. O outro é a produção impecável, feita em meio a problemas de captação e demora nas filmagens que não conseguiram abalar a credibilidade do filme. Além do elenco, direção e roteiro, o filme tem assinaturas de escolhas impecáveis e acertadas, como a de Breno Silveira na fotografia e Michael Semanick (''Magnólia'', ''O Senhor dos Anéis' e ''Clube da Luta'' na mixagem). A trilha sonora foi criada por Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana), que deu o tom obscuro e subterrâneo que o filme pede.

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