Ao longo dos anos, todos os grandes festivais internacionais se tornaram, uns mais, outros menos, reféns da porção mundana do cinema, aquela que ilustra páginas e páginas e abastece a central de boataria que, dizem os conformistas, é combustível para a sobrevivência mundial da indústria de imagens. Em Veneza, o inevitável desfile de celebridades começou de verdade com a chegada de Antonio Banderas, Johnny Depp, Salma Hayek e Enrique Iglesias, filho de Julio e desde já candidato a galã do momento, segundo a imprensa italiana mais light e atenta ao surgimento de possíveis ''divos''. Por conta dessas personalidades, todas no elenco do hors concours ''Once Upon a Time in México'', de Robert Rodriguez, a série de entrevistas da manhã de quinta atrasou, complicando a vida já muito complicada de quem tenta seguir um estafante e abrasador cronograma de filmes distribuídos por sessões diversas em salas espalhadas.
''Era Uma Vez no México'', o novo filme de Rodriguez, para quem se lembra dos dois primeiros, ''El Mariachi'' e ''Desperado'', é o fecho da trilogia. Está aqui em Veneza mais para incrementar o culto ao elenco estelar do que outra coisa. Rodriguez diz que o tom pretendido é aquele de seu grande ídolo (''o maior de todos'') Sergio Leone no tríptico dos dólares com Clint Eastwood, mas que a idéia de retomar o personagem do pistoleiro-mariachi foi de Quentin Tarantino. Faz sentido, pelo menos esta parte. O épico de Rodriguez, longe da estatura do homenageado, é parte sequência, parte evocação de ''Desperado''. O filme mescla, num crescendo visionário e sanguinolento - que até poderia ser assinado por Tarantino - cenas de revolução, agentes corruptos da CIA e barões da droga. O acerto final de contas é um espetacular golpe de cena de Rodriguez. O que se pode dizer mais, a não ser que o filme vai fazer dinheiro nas bilheterias? A propósito, Rodriguez e Banderas vão demonstrar por aqui o que fizeram em ''Spy Kids 3'', outro fim de trilogia novamente com ambos. Amigos-irmãos, de depender de Banderas, que fez ''Once Upon a Time...'' por uma pechincha.
Ninguém por aqui, até agora, tinha se dado conta desta história de livro dos recordes, Hana, a caçula do clã Makhmalbaf de um lado com 14 anos, o veteraníssimo Manoel de Oliveira de outro com 95. Ela na Semana da Crítica, ele na competição oficial, Veneza 60, mas ambos cineastas profissionais num certame de reputação globalizada como é a mostra de Veneza. Nada que mude a história do cinema, mas não há como não pensar nesse registro no mínimo curioso, e portanto já devidamente encaminhado às assessorias de imprensa do festival e da garota. Todos acharam um ovo de Colombo.
Garota sim, estreando inclusive no contato com a imprensa e o público. Ela é tímida e bonitinha, com os olhos negros belos e livres daquela pesada maquiagem hoje definitivamente incorporada ao visual da mana Samira. Nada excepcional, o filme da menina é, e não poderia deixar de ser, a cara de uma produção ''Makhmalbaf House'', uma das grifes cult com assento cativo no circuito festivaleiro mundial de ponta. ''The Joy of Madness'', de 73 minutos, é um documento, um pré-making off de ''At 5 O'Clock in the Afternoon'', último filme de Samira, premiado este ano em Cannes com o Especial do Júri. Aliás, o filme funciona mesmo como complemento do outro, arredonda e até aprofunda o trabalho de Samira quando entrega em detalhes o imenso, doloroso trabalho que foi arregimentar atores não profissionais em Kabul e utilizados para mostrar um pouco da tragédia social que se agravou no Afeganistão pós-comunista e pós Talibã.
Também estão em Veneza o pai, Moshen, a referida senhorita Samira, a matriarca Marziyeh, o irmão Maysan (que fez a fotografia do filme) e a ''entourage'' sempre vista em Cannes. É possível, e por que não, detectar uma espécie bem sucedida de ''marketingmalbaf'', para alguns um problema, para outros consequência natural do DNA cinematográfico capaz de alimentar festivais até o fim deste século.
Mas a melhor notícia do dia - e uma das melhores do festival - veio da China, e quem trouxe foi Tsai Ming Liang, este arauto contemporâneo da incomunicabilidade, o Antonioni-mandarim. Bertolucci, que está por aqui fora de concurso com ''I Sognatori'', é tiete assumido do asiático e precisa achar um tempo para ver esta beleza, este poema necessário filmado com aquela letárgica urgência a que Ming Liang nos habituou. O filme, na competição principal que fatura os Leões, é ''Bu San'', ou ''Good Bye Dragon Inn''. Curto e definitivo estudo sobre a solidão, de resto a especialidade de Ming Liang. É ''A Ultima Sessão de Cinema'' do diretor de ''Viva o Amor'' (filme que é mais próximo deste''), ''O Rio''e ''O Buraco''.
Na véspera do fechamento de uma velha e grande sala de exibição, um jovem, apesar da chuva pesada, decide entrar. Lá dentro, a tela mostra um filme de ação que fez muito sucesso há quase 40 anos, ''Dragon Inn''. Na platéia, aqui e ali uns poucos espectadores. Gays, gente velha que se parece com os atores jovens que estão no filme, homens e mulheres solitários mas de uma forma ou de outra ruidosos para se saber vivos, um garotinho. Portadora de deficiência física, a bilheteira-zeladora-lanterninha caminha com dificuldade pelo espaço imenso, sobe e desce escadas. O operador de projeção é quase nada visível. Entre os dois, um amor não correspondido, ou um romance secreto, ou uma relação amorosa que pode ou não ter existido. Nos filmes de Ming Liang sempre chove muito - a salvadora água metafórica -, os personagens fumam muito, se movem lentamente e falam quase nada, porque o que têm a dizer é muito, ou já foi muito, ou já foi tudo dito um dia, ou não será jamais.
Mas vamos de voltar aos temas comezinhos. Como primeiro ''affair'' do festival, Gina Lollobrigida (a que mais penosamente envelheceu entre as divas de antanho - Sophia, Cardinale) partiu publicamente com tudo para cima do diretor geral da Mostra, Moritz de Hadeln. Motivo: ela não foi convidada para o oba-oba que cerca a ''Retrospettiva'' que celebra o fecundo período criativo dos donos da casa, entre 1945 e 1975. Segundo Lollô, o motivo seria uma antiga desavença entre ambos que remonta a um Festival de Berlim dos anos 1980, então dirigido por de Hadeln. Ela, presidente do júri, teria sido pressionada por ele a favorecer determinado filme. Resultado: a atriz ''rodou a italiana'', o Urso foi para outro filme e Moritz, pelo visto (ou pelo não visto) ficou de mal até agora e deu o troco.
Para encerrar. Por esses dias, o cinema só não tem prioridade na grande imprensa italiana por causa do ''imbroglio'' (aqui literalmente em seu sentido mais amplo e pleno) da previdência, como se nota, um enrosco não apenas brasileiro. A tal teoria do Gérson, que conhecemos tão bem e que hoje parece encampada pelo nosso brioso judiciário, tem na Itália (e na França) por aqui um caudaloso séquito de corporativistas ferrenhos que não estão nem aí para os cofres do Estado e para os bolsos da grande maioria de jubilados, como os nossos aposentados são chamados por aqui. Maravilhas da globalização.

mockup