Curitiba Dois filmes clássicos, datados das décadas de 40 e 60, inspiraram o cineasta Sylvio Back na empreitada de seu mais recente longa, em cartaz em Curitiba. ''Lost Zweig - Os últimos dias de Stefan Zweig no Brasil'' começou a tomar corpo quando o cineasta assistiu ''Cartas de um desconhecido'' (1948), baseado no livro homônimo do escritor austríaco e ''O último obstáculo (1961), inspirado na novela ''Uma partida de xadrez'', também assinada por Zweig (o primeiro dirigido por Max Ophuls e o segundo por Gerd Oswald). Foi a partir dessas obras que Back mergulhou na vida e obra do escritor que se suicidou no Brasil apenas seis meses depois de ter chegado ao País. E foi também a partir daí, que Back encontrou outra coincidência importante que norteou a realização do seu décimo longa.
Os pais de Back se separaram quando ele tinha apenas um ano de idade. Anos mais tarde, o cineasta descobriu que o pai dele havia se suicidado. Desde então, o suicídio é tema de interesse para o diretor. E é essa temática que ele leva para tela em ''Lost Zweig''. O filme aborda a vida e obra do escritor judeu que veio para o Brasil fugindo da perseguição nazista. Pouco antes de Zweig e a mulher, Lotte, se matarem, em circunstâncias até hoje não esclarecidas, navios brasileiros foram afundados em território estrangeiro. Foi quando o escritor lamentou: ''a guerra chegou ao paraíso''. Ele e a mulher suicidaram-se em 23 de fevereiro de 1942.
Back esclarece que o filme levanta a questão do suicídio, mas não busca saber os motivos que levaram o casal à morte ''porque o suicídio é insondável''. A obra de Zweig, autor do livro ''Brasil: um país do futuro'' expressão utilizada exaustivamente desde a década de 40 e infelizmente repetida até hoje, talvez na esperança de que a profecia se concretize também não é totalmente desvendada no longa. ''O filme é sobre a vida do escritor'', resume o diretor, que também assina o roteiro em parceria com o irlandês Nicholas O'Neill.
Ambientado na década de 40 e filmado em Petrópolis e Rio de Janeiro, ''Lost Zweig'' tem algumas particularidades. É um filme de médio orçamento para os padrões brasileiros (consumiu pouco menos que R$ 4 milhões), com apoio da Lei Rouanet e Lei Audiovisual. Conseguiu reproduzir fielmente detalhes da época e ainda trouxe atores estrangeiros para a produção. Um deles, Rudiger Vogler, o protagonista, é velho conhecido dos fãs de Wim Wenders (ele pode ser visto, por exemplo, em ''O Céu de Lisboa'', ótima longa do diretor alemão).
Mesclando atores estrangeiros, brasileiros, como Daniel Dantas e brasileiros que vivem fora do País, o filme é todo falado em inglês. A decisão, conforme conta Back, foi gradativa. ''Foi difícil definir como eu iria contar a história de personagens alemães, que viviam no Brasil, não falavam português, conversavam em iídiche entre si, em inglês e francês com os amigos'', revela. A opção pela língua alemã foi descartada por causa da dificuldade em encontrar atores fluentes. ''A opção pelo inglês foi também estética'', argumenta o diretor.
O roteiro foi baseado no livro de Alberto Dines ''Morte no Paraíso'', uma biografia de Zweig lançado na década de 80 e que Back teve oportunidade de ler, inclusive, os manuscritos. O filme, no entanto, mistura ficção e realidade.
E apesar de ter lançamento setorizado no Sul do País só agora, ''Lost Zweig'' já acumula prêmios em festivais nacionais. No ano passado, no 36º Festival de Brasília recebeu os prêmio de Melhor Atriz (Ruth Rieser), Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte (Bárbara Quadros); Melhor Fotografia (Antonio Luiz Mendes) no 11º Festival de Cuiabá deste ano e Melhor Diretor, Fotografia e Trilha Sonora (Raul de Souza e Guilherme Vergueiro) no 14º Festival do Ceará 2004. Foi convidado para abrir o 80º Festival de Cinema Judaico e selecionado para o Festival Internacional do Rio de Janeiro e a Mostra Internacional de São Paulo.
O filme terá lançamento nacional no início do ano que vem, com cerca de 20 cópias, por enquanto a produção só dispõe de uma, em cartaz em Curitiba. No segundo semestre, ''Lost Zweig'' será lançado em DVD. Sylvio Back é cineasta, poeta e escritor e já dirigiu quase 40 filmes, entre curtas, documentários e longas. Filho de um imigrante húngaro e uma alemã, Back é natural de Blumenau, mas viveu por 30 anos em Curitiba. Atualmente mora no Rio de Janeiro, mas tem visitado a capital paranaense com frequencia para finalizar o documentário ''Véu de Curityba''. Ainda sem previsão de lançamento, o longa que fala sobre a cidade já está parcialmente montado.

Serviço:
- ''Lost Zweig'' também participa da Mostra Oficial do 8º Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba, com exibição na próxima quinta-feira.

mockup