CINEMA - Um drama familiar
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segunda-feira, 09 de agosto de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma família às voltas com problemas de relacionamento pode parecer uma cena comum a muita gente. Mas um minucioso recorte dessa relação, capaz de desnudar todos os personagens envolvidos, pode causar um certo incômodo. É o que acontece com o filme ''Querido Estranho'', dirigido por Ricardo Pinto e Silva. Baseado na peça ''Intensa Magia'', de Maria Adelaide Amaral, o longa foi lançado há dois anos, mas só agora ganha distribuição nacional. Em cartaz em Curitiba desde sexta-feira, o filme ganhou sessão especial na última quinta-feira com direito a aplausos durante os créditos. Explica-se: ''Querido Estranho'', que tem Daniel Filho no papel principal conta também com equipe paranaense.
A produtora curitibana Laura Dalcanalle e a figurinista Ângela Choma integram a equipe técnica do filme, já o ator Mario Shoemberger, que está em cartaz na cidade natal com o espetáculo ''3 Versões da Vida'', é o antagonista que enfrenta o patriarca Alberto, vivido por Daniel Filho. ''Querido Estranho'' começa com os preparativos para o aniversário desse patriarca, intercalando momentos de ironia e tensão.
Alberto mantém um casamento infeliz com Roma (Sueli Franco). Ela ainda tem esperança de que uma reunião com os filhos para marcar o aniversário do pai e o noivado da filha Zezé (Claudia Netto) seja um acontecimento feliz e se esmera ao preparar o evento. Mas desde que o despertador toca e ela tenta sem sucesso acordar Alberto, o espectador já pode pressentir que nem tudo serão rosas. Durante o dia (o filme se passa em 24 horas) Alberto se esmera em atacar o filho Betinho (Emilio de Mello que, pelo papel, ganhou o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante). As duas filhas, a mais velha Teresa (Ana Beatriz Nogueira) e a caçula de 37 anos Zezé (Claudia Mello) também não escapam do sarcasmo do pai.
Na conturbada relação aparecem elementos suficientes para uma tese de mestrado de Psicologia. Alcoolismo, compulsão por comida e relacionamentos anteriores igualmente falidos apenas para citar alguns. E foram exatamente esses temas intrínsecos aos problemas familiares que despertaram o interesse do diretor. O cineasta, que anteriormente já havia dirigido a comédia ''Sua Excelência, o Candidato'' (1990), conta que decidiu levar para tela a peça de Maria Adelaide Amaral exatamente pela profundidade do texto. ''A outra razão determinante era encontrar um projeto que coubesse na minha capacidade de produção'', revela.
O filme custou R$ 1,45 milhão e sua distribuição acontece com apenas 30 cópias. Um reflexo da situação do cinema nacional, segundo analisa o diretor. Depois de ser o primeiro a adaptar uma peça de Maria Adelaide Amaral (além de inúmeros textos teatrais, a autora é responsável por sucessos da teledramaturgia, como ''Os Maias'' ''A Muralha'') para o cinema, Ricardo Pinto e Silva também pretende desenvolver um projeto para a televisão.
O cineasta já comprou os direitos de oito textos, todos tendo como tema central os relacionamentos e quer transformá-los em telefilmes, ou seja, em filme que estreiam direto na televisão. O projeto, intitulado Cineteen, ainda não foi apresentado a uma emissora, mas o cineasta já avisa, apesar das dificuldades, que tem vontade de exibi-los na tevê aberta. A idéia é que os filmes compartilhem o mesmo elenco e tecnologia acessível. Uma alternativa para preencher a lacuna de distribuição das produções nacionais.


