CINEMA - Um diretor sempre em boa forma
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quinta-feira, 09 de setembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 2 
Wim Wenders, que ontem recebeu o ''Prêmio Robert Bresson'', distinção pela dada a seu cinema humanitário, chegou a Veneza dizendo que se sentia inteiramente não competitivo. Mas quer queira, quer não, ''Land of Plenty'' entrou na competição com vigor e arrancada de favorito. O filme, rodado em digital, baixo orçamento e em tempo recorde, está chegando hoje ao circuito italiano com 100 cópias. É sobre os Estados Unidos pós 11 de setembro. Não podia encontrar momento mais justo para entrar em cena.
Do céu sobre Berlim às estradas de Los Angeles, Wenders dá corpo e espírito a um novo anjo urbano, a jovem Lana (Michelle Williams), corajosa e idealista militante pacifista em missão religiosa que socorre e alimenta os sem-teto em LA, capital da fome made um USA. Ela tem um tio, Paul (John Diehl), patriótico e inquieto veterano do Vietnam, vítima residual dos efeitos da guerra química, porta-voz ativista da paranóia que corrói o país depois que os fantasmas do passado ressurgiram das cinzas do WTC. Os dois testemunham o assassinato de um árabe sem-teto, e por razões diferentes, decidem investigar os motivos do crime.
Um filme que é pungente declaração de amor aos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo uma declaração que exige a verdade, a qualquer tempo. O título original é retirado de famosa canção de Leonard Cohen, ''Land of Plenty'' - a trilha basicamente roqueira, escolhida a dedo por Wenders, é outro ponto alto. O diretor conta a paranóia que aflige os Estados Unidos nesses três anos, e apesar da farta munição crítica fez um filme com muito espaço para o lirismo. É exatamente através desse viés poético que se manifesta sua estratégia didática.
''Le Chiavi di Casa'' (''As Chaves de Casa''), de Gianni Amelio, fechou com eficiência e discreto brilho a participação italiana. Amelio, Leão de Ouro em 1998 com ''Cosi Ridevano'', assina aquele que é disparado o melhor da participação doméstica, embora ''Lavorare com Lentezza'', de Guido Chiesa, não tenha decepcionado. ''Ovunque Sei'' é caso perdido.
História simples e envolvente: pai encontra pela primeira vez filho de 15 anos, portador de uma deficiência cerebral e que foi abandonado depois que a mãe morreu durante o parto. Ambos iniciam uma relação complexa e rica em descobertas, alternando revelações, risos e lágrimas. Graças ao roteiro em nenhum momento manipulador ou auto-indulgente, embora sempre delicado e comovente, o filme transcorre transparente e tranquilo. Muito também em razão da extraordinária presença cênica de Andréa Rossi, campeão de natação em sua categoria e escolhido por Amelio para interpretar o jovem Paolo. Com muita força e boa dose de ironia, exprime com intensidade sua dramática condição.
O último francês a competir, ''L'Intrus'', de Claire Denis, é torturante quebra-cabeças em que faltam peças importantes para uma composição no mínimo razoável. PhD em elipses (alguém chamaria de pedante desonestidade, pura e simples) madame Denis esculpe sua narrativa com arrogante desprezo pela paciência do espectador, aqui em estado ainda mais lastimável depois de longa imersão num mar de imagens. Há um homem obscuro que busca se redimir do passado obscuro por vias ainda mais obscuras, em meio a um universo de sugestões pela metade, falsas pistas, personagens que entram com nada e saem com coisa alguma. Alguém à saída da sala sugeriu, com evidente dose de veneno, que qualquer filme da diretora estaria em qualquer festival dirigido por Marco Miller. A explicação cai bem, diante daquilo que se acabou de ver.


