CINEMA - Um carro adaptado para as telas
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quinta-feira, 09 de fevereiro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma pasta vermelha é trocada por engano depois de uma palestra e somente quando chega em casa, a mulher do cineasta percebe que o material uma peça de teatro não é o seu. Por curiosidade, o cineasta em questão decide ler o texto e o escolhe para transformá-lo em filme. Parece roteiro de cinema, mas é a realidade que antecede à ficção. O caso aconteceu com o cineasta Reinaldo Pinheiro e foi assim que ele conheceu o texto ''Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet'', do escritor londrinense Mario Bortolotto. Depois que a mulher, Mirian, trouxe para casa o texto, ele resolveu assistir outras peças de Bortolotto. Gostou tanto do trabalho do dramaturgo que deixou de lado o roteiro do seu primeiro longa, que já estava definido, para adaptar o texto do dramaturgo paranaense.
''Eu já tinha ouvido falar do Bortolotto. Estava para ver suas peças, mas nunca dava certo'', conta Pinheiro. Depois de ''Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet'', cair em suas mãos, no entanto, ele se tornou espectador assíduo dos espetáculos do escritor, que mora em São Paulo. O cineasta compara o universo abordado pelo londrinense com o de Nelson Rodrigues , por exemplo, e elogia o trabalho do autor. ''É uma peça muito original, fala da questão urbana e social, que particularmente me atrai bastante'', diz sobre o texto que escolheu.
Depois de bater o martelo na escolha, aliás, Pinheiro pediu que o próprio Bortolotto adaptasse o texto para o cinema. Uma segunda versão foi feita pelo cineasta em parceria com a mulher, a psicalista Mirian Chnaiderman, responsável pela feliz coincidência. Mas nenhuma das versões agradou o diretor. Foi então que ele chamou o roteirista Di Moretti (de ''Cabra Cega'' e ''Filhas do Vento'') para fazer uma terceira versão. Foi esse texto que Pinheiro inscreveu, e ganhou, em um concurso de roteiro. Depois de definir o elenco, que tem nomes como Marilia Pera, Jonas Bloch, Paulo César Pereio, Leonardo Medeiros, Milhem Cortaz e participação especial de Dercy Gonçalves, o diretor começou as filmagens no início de janeiro, na capital paulista.
O filme, no entanto, não leva o nome da peça. O título original teve que ser alterado, já que a filial brasileira da General Motors não admitiu que o nome Chevrolet estivesse associado a um filme com esse roteiro. ''A peça já foi encenada inúmeras vezes, mas a GM nunca se pronunciou. Para o cinema, porém, eles acham que o alcance seria maior e me disseram que não tinham interesse que o nome Chevrolet fosse divulgado''- diz Pinheiro. Foi o próprio cineasta que procurou a assessoria jurídica da GM. Depois de uma reunião de quase três horas, decidiu que não valia a pena comprar a briga e resolveu trocar o título do filme. ''Os advogados da empresa disseram que o título era dúbio. Se tivesse associado ao amor, às florzinhas, não teria problema'', alfineta.
Depois de várias sugestões, tanto do cineasta, quanto do autor do texto, o título escolhido foi ''Nossa Vida Não Cabe Num Opala''. ''Acho que esse título não altera o sentido do texto, pelo contrário, mantém a mesma idéia'', argumenta o diretor. A peça de Bortolotto conta a história da família Castilho, especializada em roubar carros. O patriarca Osvaldo (Paulo Cesar Pereio) acaba de morrer e os filhos têm que decidir o futuro da família enquanto preparam o corpo do pai para o enterro.
As filmagens começaram no dia 18 de janeiro em diversas locações de São Paulo, como um cemitério, um manicômio, um desmanche, um antigo ringue de luta de boxer e uma casa no Pacaembu. O filme tem 12 atores no elenco principal, 19 no secundário e cerca de 300 figurantes. Outra coincidência, aliás, aconteceu exatamente aí. Aquela pasta que foi trocada por engano depois de uma palestra, e que tinha o texto de Bortolotto, era do ator Gabriel Pinheiro. O mesmo escolhido pelo diretor para interpretar o caçula da família Castilho.
Coincidências à parte, o diretor fala sobre a produção:''Não é um filme fácil e é muito diferente de fazer um comercial ou um curta. Para fazer um longa-metragem, o diretor tem que estar com um olho no bolso, o outro no relógio e o outro na câmera'', compara Pinheiro, salientando: ''Se a trilogia acontece, você consegue fazer um bom filme.''
Reinaldo Pinheiro acumula experiência no mercado publicitário e em curtas metragens. Já assinou mais de 300 campanhas e em 2000 realizou o premiado curta BMW Vermelha, que entre outros festivais, venceu o Havana, Miami e Damasco. ''Nossa Vida Não Cabe Num Opala'' é o seu primeiro longa-metragem. As filmagens encerram no próximo dia 20 de fevereiro, consumindo orçamento de R$ 1,4 milhão. Outro montante deve ser captado até a distribuição do filme e o longa deve encerrar sua produção com verba de R$ 1,7 milhão. O lançamento deve acontecer no final deste ano.


