CINEMA - 'Tropa de Elite' chega finalmente às telas
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quinta-feira, 04 de outubro de 2007
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
José Padilha ainda tenta entender o que está lhe acontecendo. É fundamental, para um sujeito como ele, que vive lendo sobre exatas e não é, nem de longe, o típico carioca que curte praia, futebol e samba. Sua mulher lhe pergunta - ''O que você fez, Zé?''. O que ele fez foi o filme brasileiro que mais ''causou'' em 2007, ''Tropa de Elite'', que vendeu um milhão de cópias de DVD pirata antes mesmo de estrear nas salas - o que ocorre hoje, no Rio e em São Paulo. No restante do País, já que não houve tempo hábil de fazer as cópias necessárias, ''Tropa de Elite'' estréia na data originalmente prevista - 12 de outubro, na próxima sexta.
Calcula-se, já que se trata de uma economia informal, que cerca de 2,5 milhões de espectadores já tenham visto o filme. No Rio, ele virou um fenômeno especialmente um fenômeno entre motoristas de táxi. Todos já o viram. Se você entra em um táxi e puxa o assunto, o motorista imediatamente diz que aquela é a realidade do Rio.
Críticos e jornalistas é que estão divididos. Para uma parcela muito grande da crítica, ''Tropa de Elite'' é de direita, se não fascista. Para um diretor racional como José Padilha, a discussão seria estimulante (e é), mas ela também carrega um componente que lhe desagrada e até decepciona - ''Mais de 20 anos depois de Cacá Diegues, estou sendo vítima de novas patrulhas ideológicas'', desabafa.
Quando fez ''Ônibus 174'', expondo o ponto de vista do ex-menino de rua que sequestrou um ônibus e o drama foi seguido ao vivo, em transmissão direta pela TV, para todo o País, Padilha foi acusado de justificar a bandidagem. Chamaram-no de ''radical de esquerda''. Ele se explica - ''Estava tentando entender o comportamento do Sandro e permitir que as pessoas entendessem, também. Não estava defendendo o ponto de vista dele.'' Agora, saindo do documentário para ingressar na ficção, ele está sendo acusado não apenas de adotar o ponto de vista do policial, justificando a tortura e a violência, como também de transformar o Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, num herói.
Padilha sabe que, ao colocar seu filme na rua, ele deixa de lhe pertencer, para pertencer ao público, que faz suas leituras do material filmado e montado do jeito que quiser (ou puder). No caso de Nascimento, o roteirista Bráulio Mantovani e ele criaram um personagem em crise. ''Nascimento sofre de síndrome de pânico. Trabalhamos muito na construção do personagem. O pânico é a sua forma de exteriorizar a crise. Ele dedicou sua vida à corporação (ao Bope, Batalhão de Operações Especiais, a tropa de elite do título) e agora descobre que não tem a mínima paz interior para manter sua vida familiar. Mas, para sair do Bope, ele precisa fazer seu sucessor. Esse sucessor é um cara que tenta conciliar éticas inconciliáveis. Ele quer ser policial do Bope, mas quer pertencer ao grupo de estudantes da faculdade, que vêem os policiais como agentes da repressão e muitos até financiam o tráfico, enquanto consumidores. O resultado só pode ser uma escalada da violência.''
''Não emito julgamentos morais'', diz Padilha, ''mas fiz um filme sobre escolhas. Existem quase 40 mil policiais militares no Rio e 3 milhões de consumidores de drogas. Os consumidores não têm escolha, mas os policiais têm. Eles ganham pouco, estão mal aparelhados e arriscam a vida por nada. As escolhas deles são: corromper-se, omitir-se ou ir para a guerra. Qualquer uma das três é uma merda.''
O tema e os personagens são explosivos e o método de filmar de Padilha, tornando o filme ''excitante'', alimenta os críticos que acusam o diretor de manipulação, o que ajudaria a construir a aura ''fascista'' do filme. O mínimo que se diz de Padilha é que ele glamouriza a violência. O diretor diz que não sabe o que é isso. ''Violência é violência, ponto. Não é uma coisa boa, ponto'', conclui.


