CINEMA - Terra em Transe será restaurado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de setembro de 2003
Luiz Zanin Oricchio<br>Agência Estado 
Terra em Transe, um dos clássicos do cinema brasileiro, será restaurado em alta definição e terá relançamento até o fim do ano. O patrocínio do projeto é da Petrobras e se inclui no calendário de comemorações do cinqüentenário da empresa. Terra em Transe foi escolhido como o primeiro dos quatro filmes de Glauber Rocha que serão recuperados. A seguir virão O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Barravento e Idade da Terra.
O relançamento de Terra em Transe virá sob a forma dupla de cópia em 35 milímetros, para ser exibida em cinemas, e em DVD. O DVD inclui como extra o documentário Depois do Transe, de Paloma Rocha (filha de Glauber) e de Joel Pizzini. Esse documentário se aproveita de depoimentos de Glauber na longa entrevista concedida a Raquel Gerber em 1975, quando o cineasta morava em Roma, e refaz todo o processo de criação do filme, em 1967. Traz depoimentos de pessoas que viveram a efervescência da época, como Jânio de Freitas, Zuenir Ventura e Fernando Gabeira.
A restauração, pelo que se anuncia, será cercada de todos os cuidados técnicos. O filme, que teve seu negativo destruído por um incêndio num laboratório francês, será recuperado a partir de uma cópia existente em Berlim. Segundo Tarcísio Vidigal, diretor do Grupo Novo de Cinema, responsável pelo restauro, o master será copiado em HD e depois transferido para película, gerando novo negativo para cópias em 35 milímetros. Para que o restauro seja fiel ao original, a montagem contará com a supervisão de Eduardo Escorel, que editou o filme, aos 21 anos. O processo de recuperação envolve vários profissionais de ponta, supervisionados por Carlos Augusto Calil, diretor do Centro Cultural São Paulo e curador da obra do cineasta.
Completada a iniciativa, será dado um passo importante para que o conjunto da obra de Glauber esteja disponível para o espectador. Meses atrás, a Versátil, em parceria com a Riofilme, havia lançado o DVD de Deus o Diabo na Terra do Sol. Trabalho impecável, em dois discos, um com o filme, outro com extras preciosos, como o trailer da época, depoimentos, análise crítica, etc. Com a recuperação de Terra em Transe, as duas obras-primas de Glauber ficarão ao alcance da locadora mais próxima. Isso é fundamental para a divulgação dessa obra de um artista exigente, difícil, incontornável.
A recuperação de Barravento mostrará um Glauber talvez mais simples, mas já incisivo. Nessa história de pescadores, que o cineasta assumiu no meio do caminho (o antigo diretor, Luiz Paulino dos Santos, foi afastado pela produção), vê-se a preocupação etnográfica a atenção aos costumes populares e depois a sua negação, numa trama cuja preocupação central é a liberação das condições de exploração do trabalho.
O Dragão da Maldade, um Glauber mais popular (ele próprio dizia que o filme fazia concessões), traz de volta o personagem de Deus e o Diabo, Antonio das Mortes, e tornou-se uma referência para os europeus. Dialoga abertamente com o faroeste. Mas trata-se de um faroeste dialético. E finalmente, Idade da Terra, enigma final de uma obra feita de paradoxos. Para desespero de Glauber, que morreu menos de um ano depois, foi mal recebido no Festival de Veneza de 1980.
Com esses restauros, ficarão faltando os filmes estrangeiros de Glauber Rocha: Cabeças Cortadas (Espanha), Claro (Itália), Leão de Sete Cabeças (Itália) e História do Brasil (Cuba). Além do precursor do cinema marginal, Câncer, e dos curtas-metragens. O principal deles, Di-Glauber, continua proibido, embora a sentença judicial que o tirou de circulação tenha sido questionada em tese acadêmica, defendida no dia 4, na USP, pelo pesquisador José Mauro Gnaspini.


