Depois de um início insosso, o 62º Festival de Veneza afinal deslanchou. E bem. Algum jornalista disse um dia, durante uma dessas caleidoscópicas vitrines de imagens mundo afora, que Manoel de Oliveira ainda vai nos enterrar a todos. Descontada a impossibilidade bio & lógica, já que o mestre português faz 98 anos em dezembro, o repertório enciclopédico dele, no sentido mais rigoroso do termo aquele dos autênticos e extintos enciclopedistas , este sim, vai sobreviver a nossa geração e certamente às próximas.
Ver uma obra de Manoel de Oliveira é mergulhar em águas ora calmas, ora revoltas, mas sempre profundas. Há muito ele deixou de ser só diretor. Tornou-se filósofo da imagem (e da palavra) em tempo integral. Sempre fazendo profissão de fé no cinema como a síntese depurada de todas as artes, e permanentemente inquieto e pulsante a respeito de todas as coisas, De Oliveira está novamente na competição principal de Veneza, que frequenta regularmente desde 1957. Ano passado esteve aqui e levou seu Leão de Ouro pela Carreira.
O filme da hora é ''Espelho Mágico'', adaptação do romance ''A Alma dos Ricos'', de Agustina Bessa-Luis, escritora patrícia de quem levou ao cinema outros três livros ''ela não gosta da versão que faço das obras dela, eu digo a ela que não gosto que ela não goste'', disse o diretor na monástica coletiva que se seguiu à exibição, quase uma extensão do que se viu tela. É a história de uma mulher rica (Leonor Silveira) obcecada pela idéia de ver a Virgem Maria, de um ex-recluso acusado de crime que não cometeu (Ricardo Trepa), de um teólogo (Michel Piccoli), de um padre (o nosso Lima Duarte) e de outros personagens encarregados de transmitir ao espectador o pensamento inexaurível e luxuriante do roteirista-diretor.
Não se espere grandes interpretações dos elencos de Manoel de Oliveira, atores e atrizes sempre a serviço obediente de uma mise-en-scéne clássica que privilegia marcações teatrais, rígidas, condizentes com o primado do discurso. O melhor de tudo: o que aparente ser obsolescência é na verdade outra genial travessura deste genial garoto saído da alta burguesia católica portuguesa e agora entrando na quarta idade. Idade ideal, ao que parece, para acertar velhas diferenças com a humanidade.
E quem passou para trás das câmeras pela segunda vez foi o ator George Clooney. Devia fazê-lo com mais frequência. Depois da bela estréia há três anos com ''Confissões de Uma Mente Perigosa'', seu novo filme como diretor, ''Good Night. And Gook Luck'', é ótimo e fala de novo sobre os bastidores da tevê. É muito bom não apenas como exercício bem elaborado de produção e direção notável a segurança, minucioso o sentido de ''timing'', a fluência da narrativa envolvendo um tema que poderia emperrar, para dizer o mínimo, e derrapar sem volta, dadas as nuances do argumento.
Ele é bom também na defesa de seus argumentos e de seu personagem, o jornalista Edgar R. Murrow, que nos anos 1950 fez história na rede americana de televisão CBS com o talk show ''Person to Person'' e notadamente com a polêmica publica que manteve com o senador republicano Joseph McCarthy, o cérebro político-policial por trás do Comitê de Atividades Anti-Americanas, a caça às bruxas de triste memória.
O sistema de produção independente, barato, com atores trabalhando pela tabela do sindicato, é ponto alto no filme. Contando com um elenco impecável David Strathairn já é candidatíssimo a Coppa Volpi de melhor ator , uma sublime e evocativa iluminação em preto e branco e uma pegada sempre inteligente, Clooney dá seu recado liberal com muita desenvoltura, sem deixar de cutucar com acidez o novo ''jornalismo'' televisivo cada vez mais confundido com entretenimento.
Ontem foi dia também do filme-evento ''All the Invisible Children'', projeto coletivo produzido em prol de um fundo da Unicef. Sete episódios, sete curtas metragens reunidos para contar a infância negada, o sofrimento infantil, a violência com menores. A direção é de um grupo de cineastas, alguns consagrados, outros ainda emergentes, como a brasileira Kátia Lund, co-diretora de ''Cidade de Deus'', que comparece com o interessante ''Bilu e João'', sobre casal de crianças que se vira como pode na periferia de São Paulo alimentando o comercio informal de embalagens recicláveis. Os outros são Spike Lee, Mehdi Charef, Emir Kusturica, John Woo, Jordan Scott, Ridley Scott e Stefano Veneruso. Os resultados são desiguais, mas ao final e no conjunto o espírito da proposta aparece por inteiro.

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