Resistir como, à dupla de Fernandas, ainda mais juntas e muito bem dispostas e muito bem-humoradas? Com pique invejável, a Montenegro, a Torres e mais o diretor Andrucha Waddington comandaram a entrevista coletiva que levou dezenas de jornalistas ao Hotel Grand Hyatt, na capital paulista. Na pauta, a estréia nacional, no dia 13, de ''Casa de Areia'', terceiro longa-metragem de ficção assinado por Andrucha, depois de ''Gêmeas'', ''Eu, Tu, Eles'' e ''Viva São João''.
Alguém abre a conversa e pergunta: ''Fernanda, qual a maior dificuldade que você encontrou na sua participação no filme?'' Por alguns instantes ninguém pega o microfone, as duas lado a lado na mesa se entreolham até que Fernandinha responde: ''É pra você, mãe, vai...'' Ao que Fernandona retruca: ''Vai você, filha, vamos, responde...'' Nem a repórter que perguntou sabe ao certo. Risos gerais. Todos se divertem. Está quebrado qualquer protocolo, e este rápido diálogo, sem qualquer cerimônia, como se estivessem na sala de casa, ou na cozinha, entrega bem o clima de carinhosa cumplicidade.
Além do trio que obviamente centraliza os olhares e o interesse profissional da platéia, estão ali, disponíveis para a sabatina, a roteirista Elena Soárez, os dublês de atores-poetas-compositores-cantores Luis Melodia, Nelson Jacobina e Jorge Mautner, o produtor Rodrigo Saturnino, da Columbia Pictures, e os sócios de Andrucha na Conspiração Filmes, Pedro Buarque e Pedro Guimarães. Mas o objeto do desejo dos jornalistas é mesmo a trindade familiar, de resto o núcleo responsável pelo resultado que o público brasileiro vai conhecer e apreciar na próxima sexta. Por isso, neste momento, os demais não passam de figuração.
''Casa de Areia'' é um filme que fala muito de perto à mulher. É uma história sobre mulheres à beira de um tempo de descobertas. E também mergulhadas nessas descobertas. De si mesmas, do outro, do tempo, da vida. A história surgiu quando o produtor Luis Carlos Barreto, há cerca de três anos, contou ao diretor Andrucha Waddington sobre uma fotografia que ele viu um dia, e que mostrava uma casa abandonada, enterrada num areal no nordeste do Brasil. O diretor então chamou novamente a roteirista Elena Soárez, com quem tinha se dado tão bem em ''Eu, Tu, Eles''. Dois anos depois o roteiro final estava pronto.
''Foi um roteiro escrito para elas'', afirma Andrucha. E as Fernandas acolheram muito bem o presente. A história, uma saga que se passa nos Lençóis Maranhenses e que cobre quase todo o século 20, a partir de 1910, é principalmente - mas não apenas - sobre mãe e filha literal e simbolicamente gastando suas existências na areia. E sobre as trajetórias das pessoas nesse mundo. Fernanda Montenegro vive três papéis: a mãe do personagem Áurea (Fernanda Torres), a própria Áurea aos 60 e 87 anos e sua filha Maria, de 58. Já Fernandinha faz Áurea aos 28 e 37 e Maria aos 31. Embora filmado cronologicamente a pedido das duas atrizes, elas consideram que não foi nada fácil. Aliás, este vai-e-vem de personagens migrando de uma atriz para outra foi quase tão difícil de resolver quanto a permanência em locações tão complicadas, embora muito bonitas. Todos sentiram e compartilharam as dificuldades operacionais durante as filmagens.
''Eu disse ao Andrucha - diz Fernanda Montenegro - que ele conseguiu quase o impossível: gastei todo o estoque de velhas de que era capaz. Foram cinco, dos 60 aos 90 anos. Fiz um esforço de mais de vinte anos de velhas. Esvaziei todo o meu baú de velhinhas neste filme''. Já Fernandinha diz que custou para entrar no espírito da história. ''De verdade, às vezes ainda acho que é uma ficção científica de época'', diz meio travessa olhando para o marido. E completa: ''Sem brincadeira, pra mim é uma espécie de '2001, Uma Odisséia no Espaço', eu moça e então eu velha, achei uma loucura''.
Para Andrucha, seu filme é uma história sobre o tempo e sobre o destino, é um filme que caminha, que tem um sentido existencial muito preciso. ''Mas não é um filme contemplativo e inerte, não tem tempos mortos, o cenário não é cartão postal, é para ser personagem'', acrescenta a roteirista Elena Soárez. Pergunto ao diretor se ele conhece e viu um filme japonês antológico de 1963, ''Mulher de Areia'', e ainda durante a pergunta ele já sorri com ar de cumplicidade. Digo que não há nenhum resquício de apropriação indébita, são histórias muito diferentes, não há parentescos estéticos - o japonês é preto e branco, há apenas o tema metafórico da areia e a figura comum da mulher. Respeitosamene e com visível prazer, ele assume a influência: ''Três meses antes de começar as filmagens consegui uma cópia, assisti várias vezes e fiz a Elena ver também. Foi uma experiência maravilhosa, e acho que ajudou a encontrar o tom que eu buscava''.
Recém-chegada de Paris, onde esteve como convidada especial em mostra de nosso cinema por conta do ''Ano do Brasil na França'', Fernanda Montenegro, bela, fagueira e faceira no alto de seus 74 anos, falou sobre o ofício de interpretar com aquele seu jeito decidido: ''É um mistério, minha gente. É como o encontro do espermatozóide com o óvulo. O resultado só mesmo depois de nove meses. O ator deve ser como uma esponja, tem que absorver tudo.'' E falou também sobre o cinema brasileiro, que para ela ''tem enormes qualidades, e está sempre dando provas de força e coragem. Nossa grande dificuldade está na ausência de uma indústria e de um circuito de distribuição e exibição eficazes e suficientes. Todos dependem de todos, que dependem de cada um e assim por diante. Mas continua a não representar obstáculo para a jovem geração que aí está.''
E terminou com uma menção muito especial e um beijo carinhoso em Andrucha, sob o olhar filial de Fernandinha: ''Não é porque é meu genro não, mas ele deu conta de um filme difícil com muita coragem e audácia.''
O diretor, emocionado, enxugou uma lágrima e agradeceu sem dizer nada.

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