CINEMA - Surpresas no Festival de Veneza
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de setembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Por essa ninguém esperava. Mais um filmes, além dos 21 previamente selecionados e catalogados, foram incluídos na mostra competitiva, a principal seção do 61º Festival de Veneza. Agora são 22 a caçar o Leão de Ouro, embaralhando ainda mais as cartas antes da premiação que acontece sábado fora do Lido, pela primeira vez no histórico Teatro La Fenice, localizado na região de San Marco. A decisão foi explicada em texto sucinto pelo diretor Marco Muller, após a exibição de ''Binjip'' (o título internacional será ''Empty House''), o recém-concluído e excelente trabalho do coreano Kim Ki-duk.
Muller, no momento em pleno inferno astral por conta de desencontros diários entre a programação, o relógio, a superlotação da Sala Grande e o humor sempre instável da sortida e vaidosa fauna de vips locais e com passaportes diversos, disse em comunicado especial que o filme chegou na metade de agosto, fora do prazo, mas impressionou tanto a comissão de seleção que acabou incluído. Até ontem à noite a irritada mídia local ainda não tinha se pronunciado a respeito da novidade. Que não é propriamente um achado nesta altura do festival, mesmo diante da qualidade dos emergentes - e é provável que tenham todos, a julgar pelo filme de Kim Ki-duk.
O enviado da Folha encontrou casualmente o diretor Marco Muller antes da projeção em uma das salas. Na conversa informal, o assunto não foi outro se não a ausência do cinema brasileiro, em todas as seções. Com todas as letras e sons de um fluente português, Miller revelou que três filmes brasileiros foram submetidos à seleção: o último de Carlos Reichenbach, a estréia na direção da filha de Joaquim Pedro de Andrade e o mais recente de Lucia Murat. Muller gostou dos três, principalmente o de Carlão Reichenbach, mas a comissão de seleção acabou recusando todos. Mesmo não tendo visto nenhuma imagem de qualquer um dos três, acho particularmente rigoroso imaginar que possam ser inferiores a pelo menos uma dúzia de exemplares que já desfilaram por aqui.
Um poema sobre amor e solidão. Assim pode ser definido o ''filme-surpresa'' de Kim-Ki-duk, ''Binjip''. Bem menos herético do que em outras ocasiões - é dele o escândalo escatológico de ''A Ilha'', que subverteu a platéia em Veneza-99 - Ki-duk é a história de um casal de deslocados que invade casas na ausência dos donos, até que a descoberta de um morto interfere na trajetória de ambos em busca da liberdade. O diretor é considerado por muitos como o Antonioni renascido na Coréia. Nada melhor do que o confronto aqui mesmo com o mestre original que, aos 95 anos, assinou uma das partes do tríptico ''Eros'', em exibição fora de concurso na sexta-feira.
Quem também fez sua esperada estréia na competição foi o americano Todd Solondz, cult de carteirinha na comunidade festivaleira internacional. ''Palindromes'' (Palíndromos, isto é, nomes que são os mesmos quando lidos de trás para frente, como Ana ou ovo) repete o coquetel glacial que o diretor inventou, cujos ingredientes básicos são comédia, tristeza e solidão. O que parece sempre interessante em Solondz, mas nunca genial, é sua capacidade de por em cena o incômodo de estar nesse mundo, a desolação do convívio humano, a crise de abstinência afetiva - e com frequência também hormonal. E isto está novamente em ''Palindromes'', na história de Aviva, garota de 12 anos (interpretada por dicersas garotas estreantes ou atrizes como Jennifer Jason Leigh) determinada a ser mãe de qualquer maneira e suas vicissitudes para conseguir o objetivo.
Outro que não se deixa apanhar pelas armadilhas da facilidade é o israelense Amos Gitai, com certeza cada vez mais persona non grata entre os conterrâneos. Incluído na mostra competitiva, ''Promised Land'' - os italianos rebatizaram o filme como ''Hotel Promised Land'', absolutamente nada a ver - sucede ''Alila'' na carreira do diretor de ''Kadosh'' e ''Kippur''. Aqui o assunto é imigração e criminalidade, violência e prostituição, tráfico e escravidão de mulheres numa terra de ninguém onde o caos é sempre aliado do lucro ilegal. O fio da narrativa, não muito substantivo, é no entanto pretexto suficiente para Gitai colocar o libelo costumeiro com aquela crueza narrativa que é marca registrada de seu cinema, aquela imagem despudoradamente semidocumental. A primeira meia-hora é antológica.
Fora de competição, filmes não descartáveis. Como o do velho papa da nouvelle vague, Claude Chabrol, o thriller psicológico ''La Demoiselle d'Honneur''. Baseado na dama do crime Ruth Rendell, é um exemplar da mais fina casta chabrolliana. Um daqueles romances perigosos: rapaz conhece moça, moça é psicótica, rapaz se apaixona, moça propõe pacto sinistro, crimes à vista. Como sempre com o esperto Chabrol, a teia criminosa está em segundo plano. Interessam os detalhes periféricos, o comportamento humano, as relações, as sutilezas, o retrato do entorno social. E um não-suspense que é o charme do diretor.
Ou como ''Finding Neverland'', de Marc Forster. A gênese de Peter Pan. Ou como o dramaturgo escocês James M. Barrie, no início do século passado, criou para o teatro seu mais popular personagem, imortalizado pelo desenho animado de Walt Disney. O diretor Forster dirige com elegância um filme que crianças e adultos devem gostar, não sem derramar copiosas lágrimas. Johnny Depp está bem à vontade em território onde Tim Burton passearia talvez (certamente) até com mais inventividade, e deve ganhar sua segunda indicação ao Oscar.
Ou ainda como ''O Mercador de Veneza'', mais uma (mas jamais a última) adaptação de Shakespeare. Michael Radord fez o dever de casa com extrema correção e alguma desenvoltura suplementar, quando enfatiza as modernidades do bardo em relação a certos conflitos contemporâneos, como confrontos raciais e religiosos. Se na essência este é de fato um Shakespeare anti-semita, o subtexto levado com bravura pelo elenco atenua esta leitura. Al Pacino, Jeremy Irons, Joseph Finnes e Lynn Collins tornam ainda mais agradável esta adaptação luxuosamente acadêmica.


