CINEMA - Senhora violeira do Pantanal
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de maio de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Enviado a Corumbá (MS) 
Helena não, dona Helena Meirelles. É assim, com extrema reverência, que o cineasta carioca Francisco de Paula se refere à personagem do documentário ''A Dama da Viola'', um dos destaques da programação de Cinema do Festival América do Sul 2005, que terminou ontem em Corumbá, Mato Grosso do Sul. O filme conta a trajetória de uma das mais respeitadas artistas brasileiras, inclusive com aclamação no exterior, que enfrentou a família para defender sua sua arte numa época em que mulher instrumentista, e ainda por cima violeira, não era vista com bons olhos. Tamanha determinação fez o cineasta bancar R$ 300 mil praticamente sozinho somente no final das filmagens ele conseguiu co-produção com a Labocine, do Rio de Janeiro por entender que estava diante de uma criatura tão abrangente e complexa quanto talentosa.'' Dona Helena é selvagem pela própria criação e ao mesmo tempo carinhosa, bem-humorada'', diz Francisco.
O interesse por Helena Meirelles se deu em 1997 ao tomar conhecimento, através dos jornais, que a revista norte-americana Guitar Player, quatro anos antes, a incluiu entre os 100 melhores instrumentistas do planeta ao lado de lendas vivas como Eric Clapton, George Benson, B. B. King, só para citar alguns. Os editores da publicação, especializada em guitarras e os mais diversos estilos que dela se pode extrair, louvava o talento da artista sul-matogrossense pela maneira especialíssima de tirar acordes interessentes da viola. Bastou para o Brasil voltar a atenção para aquela mulher que, aos 70 anos de idade, gravava o primeiro disco respaldado pela trajetória de vida cheia de detalhes impressionantes como, por exemplo, ter ela mesma feito o parto dos 11 filhos e ter tocado em bordéis para ganhar a vida como artista. ''Encontrei a personagem pronta'', diz Francisco, que estava à procura de uma figura feminina e forte para um futuro filme.
O primeiro movimento de Francisco de Paula foi conhecê-la pessoalmente e apresentar o projeto do filme, prontamente aceito. ''Ela só pediu que fosse rodado no Mato Grosso do Sul'', pontua. As filmagens começaram em 2000 e levaram quatro anos para ser concluídas foram várias as interrupções para conseguir fôlego financeiro já que ele tentou e não conseguiu nenhum apoio governamental. Não faltou quem o desencorajasse por ser Helena Meirelles, digamos, uma personagem sem apelos comerciais suficientes para fazer carteiras de dinheiro se abrirem facilmente. ''Se parasse para ouvir as pessoas não teria feito o filme'', lembra.
O documentário teve locações no Pantanal, nos municípios de Bataguassu, Ivinhema e também na região onde se localizava a Fazenda Jararaca, em Campo Grande, onde Helena Meirelles nasceu. O filme começa com o reconhecimento nacional e internacional e aos poucos vai retrocedendo para contar a origem dessa mulher que aprendeu a tocar viola aos oito anos de idade (escondida da família), trabalhou em diversas funções como lavadeira, empregada doméstica, parteira e benzedeira - sempre cercada de peões, comitivas e violeiros. Helena casou-se aos 17 anos por imposição dos pais e abandonou o marido sem a menor cerimônia para juntar-se a um violonista paraguaio, igualmente deixado para trás. Deixou também dois filhos com pais adotivos e foi fazer o que melhor lhe dava e dá prazer: tocar, inclusive o próprio destino.
''Helena Meirelles, a Dama da Viola'' privilegia o lado artístico, mas não deixa de enfocar a alma libertária dessa senhora, hoje aos 80 anos, que desenhou a própria história com fortes tintas e só sabe escrever o próprio nome. Francisco de Paula ficou impressionado com alguns relatos de Helena.'' Ela conta, por exemplo, que sua mãe a pôs para mamar na teta de uma cadela aos seis meses de idade. No entanto, nada me impressiona mais que o fato de ela ter sido reconhecida no exterior como uma das grandes artistas do mundo'', diz.
Rodado em 35 milímetros e com 75 minutos de duração, ''Helena Meirelles, a Dama da Viola'' estreou oficialmente em setembro de 2004 no Festival do Rio de Janeiro, em exibição no mítico Cine Odeon. Na platéia, além de cineastas, críticos, jornalistas e atores estava a própria figura retratada na tela. ''Foi a primeira vez que ela (Helena) tinha ido ao cinema e justamente para ver um filme sobre sua vida'', conta emocionado. O filme continua participando de diversos festivais pelos quatro cantos do País sempre com boa acolhida. Em junho, com data a ser definida, será apresentado na mostra ''Viva Brasil'', na França. ''Os festivais são as grandes vitrines'', aponta Francisco de Paula, cuja filmografia é composta de 11 títulos , dos quais três longas-metragens.
Um de seus trabalhos mais conhecidos é ''Areias Escaldantes'', de 1985, que tem Regina Casé, Diogo Vilela e Luiz Fernando Guimarães no elenco.
Depois de concluir os circuitos de festivais, ''Helena Meirelles, a Dama da Viola'' os percursos de festivais, Francisco de Paula prepara o documentário será lançado em DVD e também em CD. Durante a exibição do filme no Festival América do Sul 2005, o público, entretanto, não contou com a presença da protagonista. ''Eu até agora não entendo o porquê da organização não ter convidado Dona Helena para tocar em Corumbá durante o festival. Logo ela que é um tesouro, uma jóia rara do Mato Grosso do Sul'', indigna-se. Taí uma boa pergunta!
Serviço:
- Durante os oito dias, o Festival América do Sul exibiu um total de 58 filmes de oito países do continente, dos quais 13 filmes de longa-metragem, 26 curtas e 19 vídeos. Participaram produções de nomes consagrados como Sergio Cabrera, Fernando Solanas, Lucia Murat Andres Wood, além de jovens produtores e produções que estão despontando no mercado audiovisual sul-americano como os irmãos Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. Alguns dos destaques internacionais foram ''Memoria del Saqueo'', de Fernando Solanas; ''Maria Cheia de Graça'', de Joshua Marston; e o ainda inédito no Brasil ''Piratas em el Callao'', de Eduardo Schuldt. Entre as atrações nacionais figuraram, além de ''Helena Meirelles, a Dama da Viola'', o também documentário ''500 Almas'', de Joel Pizzini. Os longa-metragens e os curtas foram exibidos no anfiteatro Salomão Baruki, na sede da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Corumbá. Já as sessões de vídeos aconteceram nas dependências da Casa de Cultura Luiz de Albuquerque. Tudo com entrada franca.
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Corumbá a convite da organização do Festival América do Sul 2005


