Auxiliado por dois milhões de soldados, Rodrigo Santoro despedaça uma cidade inteira em ''300 de Esparta'', o próximo filme que o norte-americano Frank Miller vai sugar dos quadrinhos, assim como fez em ''Sin City''. Aliás, é a terceira vez que o ator perambula pelos estúdios de Hollywood. Ao contrário do personagem mudo de ''As Panteras'' e do mocinho tímido de ''Simplesmente Amor''(2003), desta vez ele aparece como uma das figuras principais da trama, o imperador Xerxes. É ele, um temido líder persa, que destrói o exército grego do rei Leônidas (Gerad Butler). Mesmo assim, Santoro sabe que sua imagem de galã deve continuar intacta, sem arranhões. Até sujo e transformado em louco no aclamado ''Bicho de Sete Cabeças'' (2001), continuou a provocar suspiros nas meninas. E nem quando apareceu de camisola preta, na pele do travesti Lady Di de ''Carandiru'' (2003), deixou de estar entre os mais sedutores do País.
Santoro sabe que os olhos do público sempre olharam mais para ele do que para seus personagens. ''Ser galã é um rótulo que independe do tipo de trabalho que estou fazendo. Posso interpretar o mais terrível dos vilões que ainda vão me chamar de herói'', analisa.
Recentemente, surgiu em frangalhos na minissérie ''Hoje é Dia de Maria'' e as fãs nem se importaram com os 12 quilos a menos para caber no papel do andarilho Chico Chicote. Histéricas, elas se espremiam pelos corredores do metrô da Sé quando o ator apareceu por lá, no mês passado, para inaugurar uma exposição sobre o programa. De olho no figurino de Chicote, um rapaz equilibrava livros sobre a cabeça. Ao lembrar da cena, Santoro sorri. ''Foi a mídia que criou essa imagem de mito para mim. Eu não vivo isso, não penso nisso, mas sei que fui transformado em um produto.''
Em janeiro, quando a temporada nos EUA terminar, o ator já tem mais trabalho agendado no Brasil. Vai gravar ''Não Por Acaso'', filme de Phillipe Barcinski no qual interpreta um jogador de sinuca. Vale lembrar que, em 2006, ele também aparece em ''Os Desafinados'', de Walter Lima Jr., e roda ''Os Penetras'', sob o comando de Andrucha Waddington. Para a TV, não faz planos. E garante que, ao contrário do que diz a mídia, não foi convidado por Manoel Carlos para participar de ''Páginas da Vida'', a próxima novela das oito. ''Sou sempre o último a saber da minha vida. Leio as novidades nos jornais'', brinca. Agitado, Santoro fala com as mãos. No início do mês, em visita a São Paulo para palestrar sobre cinema, concedeu uma entrevista.

Não é frustrante estar no topo tão cedo?
Estou conquistando espaços, mas não me sinto em topo algum, não trabalho com essa hierarquia. Não vejo minha trajetória como uma caminhada ascendente e não olho para cima, mirando lugares mais altos. Prefiro olhar para frente, pois o horizonte nunca tem fim. Não estou interessado em cravar a bandeira na lua e dizer: ''cheguei!''. Quando o artista acha que atingiu a meta, fica estagnado. Adoro encarar o desconhecido, ser desafiado. Eu me sinto no meio do caldeirão o tempo todo e nem por isso usufruo da fama como poderia. Prefiro ficar quieto, longe de badalações.

É disputado pelos diretores nacionais e sua projeção internacional só aumenta. Falta o quê?
Sempre vai ter um tipo de personagem ainda não vivido. Até hoje, todo personagem novo provoca frio na barriga em mim. Demorei para notar que o olhar externo me classificava como galã e colocava no mesmo saco todos os tipos que interpretei. Para mim, eram bem diferentes. Mas já aprendi que é impossível ter o controle sobre o que pensam a meu respeito. Nunca faço um personagem preocupado em como ele será visto. Se pensasse assim, jamais teria vivido um travesti ou emagrecido doze quilos para o Dom Chico. Papéis confortáveis nunca me seduziram.

Você chegou a comprar um piano quando soube que gravaria ''Os Desafinados''. Mergulhar tão fundo em tudo não cansa demais?
Sou assim, preciso estar por inteiro dentro do personagem. Aprendi a tocar piano para o filme, assim como aprendi a cantar e dançar para a série. E também aprenderia a jogar pingue-pongue ou bola de gude se fosse preciso. Não trabalho só para pagar contas. Quando atuo, volto para a infância o tempo todo e brinco de imaginar, ainda que a brincadeira seja séria. Deus, quando saímos da convenção, da ''normopatia'', é tão mais divertido, não é?

A ''criança'' não ficou tímida nem com a chegada dos 30 anos?
Eu me sinto mais maduro, mas isso já faz tempo. Será que mudei tanto assim dos 29 para os 30? Às vezes, penso: ''nossa, já fiz 30''. E levo um baita susto! Mas, lá no fundo, sei que continuo a ser a mesma criança de sempre. Eu me sinto ainda mais cheio de energia. O que é ser adulto? Talvez esteja vendo a maturidade com mais consciência. A idade pode fazer coisas terríveis com o corpo, mas não com o espírito. Se tem algo que realmente aprendi foi olhar com distanciamento para o ''Rodrigo-pessoa-pública''. Eu me acalmei, percebi que essa histeria coletiva não é comigo, não é pessoal. Antigamente meu ego me questionava muito sobre essa invasão, mas hoje já me sinto confortável. Sou só uma peça do show e é assim no mundo todo.

Como avalia a recepção dos americanos para com o Brasil?
Vejo um momento de abertura. Não acho que olham para mim pensando: ''ele é um ator do terceiro mundo que está entre nós, ricos do primeiro mundo''. Interessa, sim, o que está sendo feito e não quem está fazendo. Se a produção toca você, não importa se vem do Brasil ou da Itália. Quem não se lembra dos singelos filmes iranianos onde o menininho divide o chinelo com a menininha? Acho que lá fora as pessoas têm colocado a mão na consciência nesse sentido.

Com tanta receptividade nos EUA e um novo trabalho por lá, já é hora de mudar de País?
Já me colocaram muito essa pilha, mas não quero me mudar. É maravilhoso poder trabalhar em Hollywood, conhecer novas culturas e até brincar de anônimo. Mas o verdadeiro desafio não é trabalhar fora do País, é trazer coisas novas para dentro dele. Estou feliz em ser o Xerxes, que já anunciam por aí como vilão. Não o vejo assim. Ele não quer o mal de ninguém, só quer defender o povo dele, a todo custo. Paralelo a isso, sinto que ainda tenho muito a fazer no Brasil. Trabalhos como ''Hoje é Dia de Maria'', por exemplo, me deixam inspirado pela TV brasileira.

A série foi impressionante. Mas o fato de ser ''diferente'' assustou a audiência. Isso preocupa?
Foi culpa do horário. Experimente colocar a série às 21h e a novela às 23h. O que acontece? O horário nobre já é cativo, pouco importa a qualidade do produto que está no ar. Não ligo para Ibope. O que importa é que o vendedor de coco, o motorista e a arrumadeira do hotel vieram falar comigo sobre a série. Durante 40 dias, passei oito horas diárias ensaiando mímica. Por fazer esportes e ter a coluna ereta, tive de fragmentar o corpo, exercitar a fragilidade. Era um desnutrido, precisava estar prestes a quebrar a qualquer momento. A série era clara, mas não óbvia. Exatamente por isso me interessa mais do que novelas. Aliás, para 2006 quero mesmo é fazer teatro com os amigos.

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