Curitiba - Cássia Eller gravou, Gal Costa e Caetano também. Só para citar algumas das grandes vozes nacionais que exaltaram composições do sambista Clementino Rodrigues, o Riachão. Mas ele próprio, aos 82 anos 70 de carreira tem apenas três discos gravados e um reconhecimento avesso a sua trajetória. Para preencher essa lacuna na história do samba, o músico e cineasta Jorge Alfredo Guimarães, 53 anos, realizou o longa-metragem ''Samba Riachão'', onde se vale da vida e obra do sambista baiano para contar a história do mais puro gênero musical brasileiro. Lançado há dois anos, o filme já foi exibido (e premiado) nos principais festivais do País, mas só agora consegue distribuição nacional.
Em Curitiba, o filme estréia hoje, no circuito dos cinemas da Fundação Cultural. Além de trazer à tona uma das principais figuras do samba, o primeiro longa de Guimarães lança mão de depoimentos e participações importantes como de Dorival Caymmi, que acaba de completar 90 anos; Caetano Veloso e Gilberto Gil, que na década de 70 gravaram a música''Cada Macaco no Seu Galho'', composta por Riachão e também de músicos de gerações posteriores, como Daniela Mercury e Carlinhos Brown.
''Só João Gilberto não deu o seu depoimento, mas acho que isso foi tão óbvio que parece que faz parte do filme'', brinca o diretor a respeito da fama do músico em não dar entrevistas. O cineasta, que também tem formação musical, revela que queria fazer um filme que contasse a história do samba, mas teve receio de se perder em tantos fatos. ''Achei que a figura do Riachão, que é o 'samba em peso' poderia contar bem essa história. Ele é do tempo das 78 rotações e chegou até o CD'', diz o diretor.
O sambista nasceu no bairro do Garcia, em Salvador, em novembro de 1921 e até hoje mora na mesma região. Desde os nove anos já cantava nas serenatas e aos 12 anos compôs o seu primeiro samba. O músico gravou o primeiro disco em 1972 e o segundo em 1980. Em 2001 gravou o CD ''Humanenochum'', indicado ao Grammy Latino em 2002. Nesse mesmo ano, teve músicas suas gravadas por Cássia Eller, Gal Costa, Lampirônicos e outros artistas.
''Samba Riachão'' foi vencedor do Festival de Brasília 2001, onde conquistou também o prêmio do público. Na época de sua realização em 2000, foi rodado com orçamento de R$ 343 mil. E para quem se assusta com tão parco orçamento quando o assunto é a realização de um longa-metragem, o diretor lembra que há quatro anos, o dólar e o real se equiparavam em seu valor. ''Hoje, o orçamento equivaleria a R$ 1 milhão, já que quase tudo no cinema é cotado em dólar'', explica Guimarães.
Ele prefere não se queixar da demora com que o filme chega às salas nacionais, com apenas cinco cópias. ''Não adianta ficar 'chiando', o que acontece com 'Samba Riachão' acontece com o cinema brasileiro. Temos é que lutar para conseguir reconquistar o número de salas no País e um preço acessível para o cinema'', defende o cineasta baiano. A distribuição acontece pela Pandora Filmes, depois do filme ter sido contemplado em edital do Ministério da Cultura.
Enquanto assiste a trajetória do filme, Guimarães dá os últimos retoques no roteiro do seu segundo longa-metragem. Com o título de''Avangarde'', o roteiro deve ser inscrito nos editais de leis de incentivo em busca de recursos para sua realização. Trata-se de um filme de ficção onde um cineasta carioca desembarca em Salvador e é recepcionado por um artista local. Qualquer semelhança com um episódio vivido por Glauber Rocha não terá sido mera coincidência.

Serviço: ''Samba Riachão'' (86 minutos, cor, 35mm), direção de Jorge Alfredo Guimarães, em cartaz na Cinemateca.

mockup