CINEMA - Realismo bem-humorado
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de setembro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Depois de quase uma década de pesquisa e metade desse tempo dedicados à produção, filmagens e montagem, o primeiro longa-metragem da carioca radicada na França Alice de Andrade tem lançamento comercial. ''Diabo a Quatro'' tem apenas seis cópias circulando pelo País. Mas onde consegue chegar e atrair o público tem recebido boas críticas. Trata-se de uma comédia social, que brinca com personagens estereotipados como o surfista malandro, a moça do interior que vira prostituta e o cafetão na tentativa de levar à reflexão. O humor, nesse caso, funciona, e dá um resultado bastante coeso à produção.
A idéia do roteiro, assinado em parceria com profissionais franceses e com ajuda do músico e ator Evandro Mesquita (que também atua no longa) surgiu há dez anos, quando Alice andava apressada pelas ruas do Rio de Janeiro e acabou pulando sobre algumas crianças que dormiam na rua. ''Eu pensei: Meu Deus, eu estou anestesiada. E comecei a refletir sobre a situação dessas crianças. Me deu vontade de fazer um filme sobre essa realidade. Sobre os muitos mundos que existem em Copacabana, por exemplo'', conta a cineasta, filha do diretor Joaquim Pedro de Andrade, em entrevista à Folha.
''Diabo a quatro'' conta a história de quatro personagens que vivem situações paralelas, mas que tem suas vidas cruzadas pelas circunstâncias. Rita Soares (Maria Flor) é uma garota amazonense que trabalha como babá num apartamento em Copacabana. Em frente ao prédio em que a menina trabalha mora Paulo Roberto (Marcelo Faria), seu objeto de desejo. Um surfista que só pensa em ondas, maconha e sexo (com profissionais, diga-se de passagem). Como vizinho, os dois tem também o empresário/cafetão Tim Mais (Márcio Libar), que gerencia garotas de programa e acaba chamando Maria Flor para trabalhar com ele.
O menino Waldick (Netinho Alves), que foge de casa para viver o sonho de ser camelô na cidade grande, liga todos esses tipos e mundos, reunindo o surfista, a babá e o cafetão numa aventura que envolve desde a fuga da polícia até uma longa viagem pelos cenários exuberantes de Minas Gerais. Ok, contando parece uma salada, mas é justamente essa mistura exagerada de estilos e histórias, uma estratégia proposta, segundo a diretora, que dá a tonalidade do filme.
Antes de escrever o roteiro, Alice de Andrade passou dois meses nas ruas, conversando com meninas e meninos de rua, prostitutas e personagens que inspiraram os que estão no filme. Depoimentos, matérias de jornal e o clima de campanha eleitoral na época da filmagem (2002) contribuíram para a finalização do roteiro. Quem estava no Brasil na época, também deve lembrar de passagens pitorescas citadas no filme, como a ''lenda'' das latas de maconhas despejadas no litoral carioca.
''Diabo a quatro'' teve orçamento de R$ 2,5 milhões, considerado baixo já que contou com 36 cenários, filmagens que envolvem perseguição e cenas de helicóptero, além de 70 atores. Somam-se ao elenco principal, participações de Marília Gabriela e Ney Latorraca, como os pais de Paulo Roberto. ''O filme é a concretização de um sonho e apesar da minha auto-crítica exacerbada, estou muito satisfeita com o resultado'', finaliza a diretora.
O filme já foi exibido em dezenas de festivais nacionais e internacionais. Este ano, ganhou Prêmio Especial de Júri e Melhor Ator Coadjuvante (Jonathan Haagensen) no 37º Festival de Cinema de Brasília e os prêmios de Melhor Atriz (Maria Flor), Melhor Filme, Direção, Roteiro e Melhor Produção do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá.


