CINEMA - Quase um comercial do Mini Cooper
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de outubro de 2003
Carlos Eduardo Louenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Anexe a sugestão ao ingresso: uma vez diante do lançamento nacional ''Uma Saída de Mestre'' (veja a programação de cinema na página 2), você entrou em área em que a substância está ausente. Este é um filme desprovido de idéias, de conteúdos - quanto mais de aprofundamentos - e de interpretações. É como se a gravidade fosse zero, com você flutuando diante de objetos e pessoas filmados. É por isso que tudo, ao final, vai parecer muito cool. Mas calma, nem tudo é tão indigente assim.
Se você gosta de corridas de cavalos, pode encarar o filme como um páreo ultra-disputado - o sábio Hemingway dizia que o assunto nelas, nas corridas, era nada além disto mesmo, pura correria. Os bichos começam a correr e só param quando cruzam a linha de chegada, ainda assim com grande esforço do jóquei. E é esta correria que é até bem recreativa, especialmente quando os principais participantes são um trio de gracinhas sobre rodas, os Mini Coopers. É bom esquecer quem está na condução das máquinas.
Uma espécie de refilmagem de ''The Italian Job'' (Um Golpe à Milanesa), realizado na Inglaterra em 1969, ''Uma Saída de Mestre'' situa-se quase naquele mesmo universo de romântica fantasia habitado por ladrões geniais e espirituosos. É o onipresente clichê do gênero: cérebros em nível eisensteiniano, que transformam assaltos em arte performática temperada com charmosas doses de magia, desonestidade, dissimulação e bom humor, aliadas ao brilho técnico e à prática de boa vida e sofisticação.
''Uma Saída de Mestre'' abre em Veneza, mas não fica lá por muito tempo. Na cidade dos canais, uma quadrilha chefiada pelo amável Charlie Croker (Mark Wahlberg) e composta por aquela sempre empática ''entourage'' (Jason Statham, Seth Green e o ''rapeiro'' Mos Def) planeja ''aliviar'' um cofre do apreciável peso de U$ 35 milhões em barras de ouro. A eminência parda dessa turma é John (Donald Sutherland), em seu derradeiro golpe antes da aposentadoria, o que a esta altura todos na platéia já deveriam saber o que isto significa. O único excêntrico da equipe é Steve (Edward Norton - de resto o único ator em cena em que se pode e deve confiar). Sua hostilidade é tão óbvia e incômoda que se fica imaginando porque os colegas não se livram dele. Até que se descobre a resposta: se ele desaparecer da trama não tem mais filme. E isso ainda levando-se em conta que o ator teria atuado por força de obrigações contratuais, e não por ter gostado do roteiro.
O segmento veneziano que inicia a trama é elegante, esperto, repleto de precisão cronométrica e pistas falsas. Pelos canais-avenida, uma acrobática perseguição a título de tática diversionista para disfarçar a verdadeira fuga. O melhor desta parte é a maneira que os ladrões encontram para remover do ''palazzo'' não apenas o ouro, mas o cofre de ferro inteiro. Mas é hora da traição. Steve, o mau, tem seus próprios asseclas, claro que não sofisticados, não espertos, não engenhosos e não mágicos. Apenas maus e assassinos como convém à formula. Sem nenhuma dúvida eles se apossam do ouro. Mas espere, quem vem lá? Os sobreviventes da quadrilha inicial, naturalmente. E como não são criminosos selvagens, mas tão somente raffinés, eles pretendem se vingar sem violência, roubando dos ladrões malvados. Que tinham roubado dos bons ladrões...
Corta para Los Angeles, mansão-fortaleza de Steve-Norton. Ele agora é o alvo da vez. Em cena outro plano, ainda mais elaborado, mais sofisticado, mais dinâmico. E agora com o decisivo concurso da bem-dotada (também profissionalmente) filha de John-Sutherland, a bela Stella, interpretada por Charlize Theron. Ela não é ladra, mas quase, e quem se importa? Já que não rola nenhuma tensão erótica com Wahlberg (não por culpa dela, um estopim auto-inflamável), o negócio é evitar perda de tempo, abrir logo o cofre e botar os Mini Cooper em ação, tumultuando o transito de L.A.
Não adianta procurar. Ninguém vai encontrar na tela sequer uma centelha de ética - nem entre os ladrões, acredite. O ouro, de quem seria? E a polícia, onde andaria? Ninguém parece se importar. Sendo assim, por que não? até recomenda-se este assumidíssimo entretenimento puramente comercial.


