CINEMA - Qualidade acima de tudo
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2003
Beatriz Coelho Silva<br> Reportagem Local 
O cineasta Nelson Pereira dos Santos está finalizando seu documentário ''Sérgio Buarque de Hollanda - Raízes do Brasil'', cinebiografia do pai de Chico Buarque e da moderna historiografia brasileira, mas termina 2003 com uma vitória. ''Vidas Secas'', ''Azyllo muito Louco'' e ''O Amuleto de Ogum'', 3 de seus 19 filmes (17 longas e 2 curtas) acabam de ser restaurados, numa parceria do cineasta com a Labocine e a Petrobras. ''Agora, quem tem menos de 30 anos verá meus filmes na tela grande, para a qual foram feitos'', comemora o cineasta, que já completou 50 anos de carreira. ''Foi bom rever amigos que foram para o céu, como Leila Diniz e Jofre Soares, mas estão vivos no celulóide.''
Desde a criação da Lei do Audiovisual, nos anos 90, que permitiu às empresas investirem parte do Imposto de Renda a pagar em projetos cinematográficos, Nelson buscava parceiros para essa empreitada que evitaria a ''morte'' de sua obra. A Labocine animou-se, mas só em 2001, quando a BR-Distribuidora acenou com R$ 1,2 milhão, foi possível iniciar o trabalho. ''O critério foi o do estado dos filmes. O que estava mais fácil veio primeiro'', explica o restaurador Francisco Moreira. ''Os próximos devem ser 'Rio 40 Graus' e 'Rio Zona Norte'.''
Esses são os dois primeiros longas de Nelson Pereira dos Santos, ainda nos anos 50, considerados precursores do Cinema Novo, do qual ''Vidas Secas'' viria a ser um dos títulos mais importantes. Apesar disso, dos três relançados, era o que estava em pior estado.
Barreto, hoje um dos principais produtores brasileiros, fotógrafo da revista ''O Cruzeiro'' na época, participou da restauração tomado pela nostalgia ''de um tempo em que se fazia um cinema romântico, como se fosse uma missão''.
Sucesso de crítica aqui e no exterior (e destaque no Festival de Cannes de 63, ao lado de ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'', de Glauber Rocha), ''Vidas Secas'' virou lenda do cinema brasileiro mas foi pouco visto. No lançamento, mesmo com bom público, ficou pouco em cartaz e raramente voltou à cena. Foi relançado em VHS nos anos 80, pela Manchete Vídeo, o que significa que dificilmente será encontrado nas locadoras. Nelson pretende relançá-lo e os outros também em DVD, mas ainda não tem prazo para isso.
Mesmo assim, ''Vidas Secas'' teve melhor sorte que os outros dois filmes restaurados, que correspondem a fases diferentes da vida nacional e da obra de Nelson Pereira dos Santos. ''Azyllo muito Louco'', de 71, é uma adaptação livre do conto ''O Alienista'', de Machado de Assis, recheado de citações psicodélicas. Nildo Parente, Isabel Ribeiro, Arduíno Colasanti, Ana Maria Magalhães e Leila Diniz parecem estar num longo piquenique hippie, que agradou aos poucos que o viram, pois o filme esteve nos cinemas ainda menos tempo que ''Vidas Secas''.
''Amuleto de Ogum'', de 75, misturava trama policial a crenças afro e trazia Jofre Soares, Ney Sant'Ana, Anecy Rocha e Jards Macalé percorrendo ruelas do Rio e da Baixada Fluminense. Como na época o cinema nacional havia encontrado espaço nas salas de exibição, ficou mais tempo em cartaz, mas com bilheteria longe do hit da época, ''Dona Flor e Seus Dois Maridos''.
Nelson reviu esses filmes com saudades dos amigos e vontade de refazer o que ficou datado, mas resistiu à tentação. ''Sou suspeito para falar sobre a importância desses filmes e não consigo escolher o preferido.'' O documentário ''Raízes do Brasil - Cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda'', também pago pela Petrobras (na comemoração dos 50 anos da Estatal), deve estrear em meados de 2004 e restauração dos outros filmes deve durar até o fim do ano. ''Mas o orçamento inicial de R$ 1,5 milhão (R$ 300 mil vindos da Labocine) terá de ser revisto porque, dos anos 90 para hoje, o preço do dólar triplicou.''


