''Boa Noite e Boa Sorte'', filme de George Clooney que está em segunda semana de exibição em Londrina, propõe passar a limpo um dos episódios mais obscuros e lamentáveis da história dos Estados Unidos: a Caça às Bruxas, ou o macartismo, uma tramóia política engendrada pelo senador Joseph R. McCarthy. A origem foi a chamada Guerra Fria, iniciada com a divisão do mundo em dois blocos depois da Segunda Guerra Mundial: o capitalista, liderado pelos EUA, e o comunista, encabeçado pela União Soviética. Na prática, sob o governo Truman, um exemplo de contenção ideológica e repressão de liberdades, contrariando fundamentos democráticos do ''New Deal'' criado por Franklin Delano Roosevelt. Mas o espectro do cogumelo atômico, que passou a ser cultivado pelos soviéticos, foi o equilíbrio que desencadeou a paranóia.
Ao final dos anos 1940, a influência do minúsculo partido comunista americano tinha despertado o medo dos ideólogos da época, assim como no mundo do cinema, fazendo crer que dentro do movimento partidário havia movimentação ilegal, como espionagem, terrorismo e sabotagem. O comunismo era então uma ignomínia aterradora que devia ser combatida por todos os meios. E igualmente deveria ser eliminada a tendência pró soviética que começava a proliferar no mundo do cinema, com filmes como ''Quando a Neve Começar a Cair'', de Jacques Tourneur (1944) e ''Missão em Moscou'', de Michael Curtiz (1943).
Para interromper a filiação comunista e a ameaça vermelha, foi criado no Congresso o HUAC - House of Un-American Activities Commitee (Comitê de Atividades Anti-Americanas), tutelado pelo senador Martin Dies. O novo órgão, com sua restrição de liberdades, proporcionou um clima de suspeitas alimentado pela difamação e pelos rumores. A partir daí, a confecção das listas negras propiciaram um terrível pesadelo, que inclui delações, perda de empregos e perda até da própria identidade, já que se descobriu alguns poucos ''culpados'' em prejuízo de muitos inocentes.
O que se viu foi a destruição da vida pessoal e profissional de milhares de pessoas pelo simples fatos de terem contato com conhecidos supostamente vinculados ao comunismo. Um clima de tensão patriótica alusivo à censura totalitária e fascista, que culminaria com a chegada do senador McCarthy à frente do comitê. Com total arbitrariedade e sem qualquer fiscalização, ele impôs implacável e despótico sistema inquisitorial que fragilizava os direitos individuais.
Antes do apogeu do macartismo (que teve seu esplendor entre 1950 e 53), um dos episódios mais tristemente célebres comandados pelo HUAC foi a perseguição à comunidade hollywoodiana. Neste momento, intelectuais e artistas de cinema se dividiram. De um lado foi criada a conivente Aliança para a Preservação dos Valores Americanos, integrada por atores como John Wayne, James Stewart, Gary Cooper, Clark Gable, Ronald Reagan, Bárbara Stanwyck, Geiger Rogers e diretores como Leo McCarey, Cecil B. De Mille, Victor Fleming, Frank Capra e Walt Disney. No lado oposto, com bem menos integrantes, o grupo encabeçado por Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Dalton Trumbo e Edward G. Robinson promoveu o Comitê para a Primeira Emenda, posicionando-se contra o HUAC e imediatamente enquadrados por rebeldia.
Neste caos envolvendo culpados e não culpados, apareceram delatores, gente aparentemente liberal e progressista, que oferecia nomes de simpatizantes comunistas para garantir empregos e livrar a própria cara. Jack L. Warner (um dos irmãos da Warner. Bros), Robert Taylor, Adolphe Menjou, Gary Cooper, Elia Kazan e Lee J. Cobb, acovardados, feriram fundo o cinema da época com suas acusações, muitas infundadas, que acabaram levando ao inferno em vida os famosos ''10 de Hollywood'', gente de peso que não representava de fato nenhum perigo e que fazia o melhor cinema da época, escrevendo, dirigindo ou apenas teorizando. Todos perderam seus empregos e foram para a cadeia, onde ficaram durante meses.
Outros suspeitos, como Dashiell Hammet, Robert Rossen, Jules Dassin, Charles Chaplin, John Huston, Arthur Miller, Bertold Brecht, Orson Welles, Joseph Losey e Fritz Lang se exilaram na Europa ou simplesmente se esconderam até o final do macartismo, receando represálias. Até 1953, mais de 2 mil pessoas relacionadas com o mundo da arte, do cinema, da imprensa, da literatura e da ciência foram condenadas ao ostracismo social e profissional. Emblema trágico deste período foi a morte aos 39 anos de um destroçado John Garfield, ator famoso e esquerdista assumido, afinal consumido pela depressão causada pela situação.
Aqueles anos de repressão e abuso ficaram para trás como um sonho mau, mas sua marca manchou para sempre a história americana e deixou as sequelas sempre sentidas quando os republicanos estão no poder. A dissidência sindical foi varrida e o mundo de Hollywood, na expressão de Arthur Miller, ''se converteu ao conformismo.'' E dois dos homens que participaram ativamente da Caça às Bruxas, o jovem político Richard Nixon e o ator Ronald Reagan, terminaram presidentes do país.
Os Estados Unidos nunca mais foram os mesmos. O império então emergente havia sido imunizado contra os dissidentes do sistema. E os protestos dos anos 1960 só viriam confirmar a eficácia desta vacina: nunca foram nada além de uma charmosa e efêmera primavera de rebeldia.

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