CINEMA - 'Peões' vence em Brasília
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quinta-feira, 02 de dezembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Os dois foram realizados simultaneamente, no segundo semestre de 2002. O de Eduardo Coutinho saiu em busca daqueles que fizeram o movimento grevista no ABC há pouco mais de 20 anos, quando Lula despontou para uma trajetória que o levaria à presidência do país. Na tela, os ''Peões'', operários e combatentes de primeira hora, entrevistados duas décadas depois daquele tempo de resistência. O de João Moreira Salles grudou em Luiz Inácio Lula da Silva ainda candidato, dois meses antes da vitória no segundo turno. Na tela, os ''Entreatos'' da campanha, o diário daquela tensão crescente, a expectativa da vitória cada vez mais próxima, os bastidores, as (in) confidências, a intimidade no quartel-general, as estratégias, a logística, o intenso vaivém aéreo, as conversas ao pé de ouvido, as dúvidas, os temores, as alegrias, o desenlace.
Exibido quarta à noite fora de concurso, antes do anúncio dos prêmios aos vencedores do festival, ''Entreatos'' foi demoradamente ovacionado pela enorme platéia que lotou a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília. Se ''Peões'' de Coutinho logo em seguida o filme levaria o Candango como melhor longa-metragem da mostra já era muito bom, o documentário de João, o irmão mais moço de Walter Salles, é ainda melhor. Os dois estrearam simultaneamente na última sexta nas principais capitais, em lançamento ''casado'', isto é, estão sendo exibidos em horários alternados na mesma sala. Não são peças político-partidárias, mas são complementares quanto a traçar uma radiografia do universo de Lula e de tudo que gravita ao redor dele. Ambos são grandes momentos de cinema, na medida em que captam em imagens essenciais a humanidade dos personagens que elegeram.
Composto pelo diplomata Edgar Telles Ribeiro, pelos diretores Jorge Bodansky, Lina Chamie, Lucia Murat e Renato Barbieri, pelo crítico Ismail Xavier e pela atriz Maria Luisa Mendonça, o júri oficial de curtas e longas em 35 mm saiu-se bem da incumbência. O troféu Candango de melhor direção foi para Toni Venturi por seu político, intimista e honesto ''Cabra Cega''. O filme levou ainda os prêmios de roteiro (Di Moretti), ator (Leonardo Medeiros) e direção de arte (Chico Andrade).
As melhores atrizes, principal e coadjuvante, foram Zezeh Barbosa e Lúcia Alves, de fato muito boas na divertida e bem amarrada comédia ''Bendito Fruto''. O documentário ''500 Almas'', de Joel Pizzini, levou merecidamente quatro importantes prêmios técnicos a fotografia de Mario Carneiro, a montagem de Idê Lacreta, o som de Romeu Quinto e a trilha sonora de Livio Tragtenberg. O Prêmio Especial do Júri foi para ''O Diabo a Quatro'', que propiciou ainda a Jonathan Haagensen o troféu de melhor ator coadjuvante.
Entre os curtas em 35mm, o vencedor foi ''Mina de Fé'', do grupo Nós do Morro, uma garotada valente que faz cinema e outras artes correndo risco de morte todos os dias no fogo cruzado dos traficantes do Morro do Vidigal, a ''Faixa de Gaza'' carioca. Na categoria 16mm, o melhor filme foi o documentário-ficção ''O Homem da Mata'', de Pernambuco. Ao todo, o Festival de Brasília distribuiu R$ 435 mil reais aos melhores nas diversas categorias, aí incluídos os diversos títulos da surpreendente produção brasiliense distribuída entre vários gêneros e formatação.


