CINEMA - Outro filme maldito?
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sábado, 13 de março de 2004
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Parece reprise de filme antigo. A movimentação para restringir a circulação do filme de Mel Gibson, ''A Paixão de Cristo'' lembra muito a que ocorreu há 15 anos, para também tentar proibir a exibição de ''A Última Tentação de Cristo'' de Martin Scorsese. Vale recapitular um pouco - os arquivos do jornal 'O Estado de S. Paulo' documentam todo esse imbróglio que talvez ajude um pouco a entender o que se passa agora.
Em novembro de 1988, um tal Grupo Terrorista de Defesa da Religião Católica ameaçou com bombas e seqüestro a organização do FestRio e o resultado foi que ''A Última Tentação de Cristo'' foi retirado da programação. Naquele mesmo mês, um grupo de católicos de Brasília entrou com um mandado que foi indeferido no Supremo, sob a alegação, fundamentada, de que a Constituição garantia a liberdade de expressão artística. Em São Paulo, o prefeito Jânio Quadros teve então o estalo - baixou uma portaria exigindo uma fiscalização rigorosíssima nas oito salas que deveriam lançar o filme de Scorsese na cidade.
Como se em outras circunstâncias a fiscalização pudesse (ou devesse) ser abrandada, o rigor que Jânio exigiu de seus colaboradores levou ao fechamento das salas e ''A Última Tentação de Cristo'' só pôde entrar em cartaz em janeiro de 1989, quando ele já se fora da Prefeitura. Os católicos não agüentavam a idéia de um Cristo humano, sofrendo a tentação de fazer sexo com Maria Madalena.
Agora são os judeus que consideram o filme de Mel Gibson anti-semita. A polêmica está formada - até o Vaticano entrou na briga, para dizer que a leitura que Mel Gibson faz da Paixão é a que está nos Evangelhos. Está, concordam os judeus, mas eles acham que Gibson fez uma leitura seletiva que pode reerguer o fantasma, nunca extinto, do anti-semitismo. Para atenuar o impacto do filme sobre as platéias, principalmente jovens, o advogado Jacob Goldberg Pinheiro está pedindo a ampliação da impropriedade para 18 anos.
Mel Gibson deve estar rindo à toa. Carolão, homófobo, ele foi considerado lunático quando decidiu fazer ''A Paixão de Cristo'' e não abriu mão de que o filme fosse falado em aramaico. Os executivos dos estúdios não queriam nem ouvir falar de seu filme, que dirá distribuí-lo. A polêmica fez com que ''A Paixão de Cristo'' estourasse nos EUA e agora a Fox vai lançar o filme, que antes era maldito, com mais de 300 cópias - um megalançamento.
''A Última Tentação'' não desestabilizou a Igreja nem promoveu a dissolução da família e dos costumes. ''A Paixão de Cristo'' também não deve levar a um recrudescimento do nazismo no País. Mas esse zelo dos que querem cercear ou proibir é sempre preocupante. Eles partem do princípio de que o público não tem capacidade de pensar. A ditadura também acreditava nisso. No começo dos anos 1970, os militares só faltaram queimar as cópias de ''Último Tango em Paris'', de Bernardo Bertolucci. No começo da semana, o filme passou na TV e ninguém perdeu o sono por isso. São lições que deveriam ser avaliadas. Mais vale discutir ''A Paixão de Cristo'' do que tentar cerceá-lo. Qualquer tentativa de proibição só vai chamar mais atenção sobre o filme. E Mel Gibson vai ficar mais feliz ainda.


