CINEMA - Os fantasmas de Nicole Kidman
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de setembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Veneza, especial para a Folha 2 
É a última mega-star a ancorar no cais do Lido de Veneza, coroando um dos mais vistosos desfiles mundanos dos últimos anos de festival. Nicole Kidman parece ser a preferida de 11 entre 10 italianos e asiáticos, o que deixou a privacidade da moça sem qualquer alternativa. Foi assim ao final da entrevista coletiva que se seguiu à exibição de Birth, outro filme americano selecionado para a mostra competitiva. Como bando de hienas esfaimadas, os jornalistas caíram em cima da atriz em busca de um rabisco qualquer. Mas não foi assim quando a equipe do filme entrou na sala das coletivas no terceiro andar do Casinó. À frente, longamente ovacionada, um mito há muito comprovado se apresentou na figura deliciosa da veterana Lauren Bacall, que está no elenco do filme. Por alguns bons momentos, a safra mais recente foi eclipsada pelo imortal carisma da velha Hollywood.
Birth, já com lançamento garantido no Brasil, é uma tolice requintada, uma história (mal escrita) a meio caminho entre drama sentimental e thriller metafísico. Kidman é Ana, jovem viúva que decidiu definitivamente enterrar o passado de perda e dor. Mas quando dá o passo, já de casamento marcado, é apanhada no contrapé. Um garoto de dez anos aparece na frente dela e se diz a reencarnação do marido, Sean, morto há exatamente uma década. Ela surta com razão, e joga tudo para o alto em nome do velho amor. Mas o garoto acaba negando ser o ex-marido quando descobre um segredo que não pode compartilhar com Ana.
O diretor inglês Jonathan Glazer, revelado em Sexy Beast, não poderia fazer muito mais com o material que o veterano roteirista Jean-Claude Carrière - quem diria, aquele mesmo brilhante colaborador de Buñuel - colocou em suas mãos. E o espectador também não tem muito a fazer, se não lamentar os descaminhos a que o filme se entrega. Nenhum sólido suspense, nenhum aporte de recursos digamos, sobrenaturais que, preferivelmente, pudessem pelo menos dar à narrativa rumos menos complacentes e mais arrepiantes.
O escândalo potencial envolvendo um beijo (discreto) e um banho de banheira (idem) compartilhado entre Nicole e o jovem ator Cameron Bright, além de frustrar os eternos plantonistas, não resulta em qualquer significado pedófilo e não fará qualquer diferença, a não ser talvez em círculos rigorosamente puritanos. O pré-marketing aqui em Veneza sugeriu também que Birth estaria próximo de O Bebê de Rosemary, embora sem o satanismo. Esqueça esse nonsense e lembre apenas daquela outra Nicole no centro da ótima fantasmagoria providenciada por Alejandro Amenábar Os Outros, reverenciado em Veneza-2002.
Intrigas palacianas na corte do cinema afirmam que, caso não existissem criancinhas, hoje o cinema iraniano também não existiria. Ou não teria tido a mesma repercussão, mundo afora. O argumento malicioso, claro, é discutível. Mas não se deixa de dar um tanto de corda para enforcar o suspeito diante de Sag-haye Velgard (Stray Dogs) , um dos últimos filmes a competir nesta edição da mostra veneziana. Diretamente da prolífica Makhmalbaf Film House, a empresa-escola criada em Teerã pelo realizador Mohsen Makhmalbaf, surge este filme assinado por Marziyeh Meshkini, justamente a mulher de Mohsen.
É a história de duas crianças sem teto vivendo miseravelmente em Cabul, a deflagrada capital do Afeganistão. A mãe está presa. Acusada de adultério, porque casou de novo para sustentar o casal de filhos depois de cinco anos sem ter notícias do marido talibã, até então desaparecido. Para ter onde dormir, as crianças vão todos os dias bater à porta da prisão. Passam a noite com a mãe e saem na manhã seguinte. Mas alguém muda a regra. Eles agora só poderão entrar como prisioneiros. É preciso cometer algum crime. Como roubar uma bicicleta, exemplo que eles tomam emprestado do filme Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, assistido numa sala de Cabul.
Na coletiva que despertou pouco interesse, e acompanhada por sua pequena atriz Gol-Ghoti, a diretora já premiada em Veneza em 2000 com O Dia em Que Me Tornei Mulher, disse que o filme não só é uma homenagem ao clássico de De Sica como ainda busca retomar, na forma e nas idéias, a própria estrutura do neo-realismo italiano. Esse talvez seja um dos motivos, mas não o único, a explicar porque tudo parece tão esquemático, tão trabalhado segundo o manual. Tudo bem que os Makhmalbaf e seus alunos rezem pela mesma cartilha acadêmica, que a geografia esteja à flor da pele para o registro das mazelas sociais e que há sempre algumas boas imagens a serviço de algumas idéias. Mas mas nada impede que alterem aqui e ali o ângulo de visão, só para variar um pouco. Como está, vai virando exaustivo moto perpétuo.


