CINEMA - Original mesmo só a data de estréia
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quarta-feira, 07 de junho de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Era tentação para diabo nenhum botar defeito. Como não lançar uma refilmagem de ''A Profecia'' no dia 6 de junho de 2006? Sabem muitos - mas muitos com idade abaixo de 30 ignoram - que em 1976 este foi o filme que explorou a informação bíblica (para os ateus mera superstição) segundo a qual há um número que identifica o demônio, o 666, centena de resto prudentemente recusada pelos bicheiros nos jogos de azar não oficiais de anteontem.
No filme da década de 1970, o filho de Satanás nascia na sexta hora do sexto dia do sexto mês. Aqui, agora, a comemoração do astuto marketing da Fox foi dupla: além dos trinta anos da estréia do original (25 de junho de 76), a real confluência de datas no calendário completou a festa. Enquanto isso, os frustrados cabalistas do Apocalipse recolheram as premonições, já que o mundo mais uma vez não acabou, a não ser para os finados do dia.
No cinema, o transcurso do tempo gera certas confusões. Especialmente quanto à categoria de clássico. Não se fala aqui de estilos narrativos, mas de filmes que transcendem sua época exclusivamente pela qualidade superior. Direto ao ponto: ''A Profecia'' de 1976 não é e nunca será um clássico - em território satânico, ''O Bebê de Rosemary'' e ''O Exorcista'' pairam acima de qualquer suspeita. O filme de Richard Donner, suspense temperado com horror e sustentado em religiosidade, obteve muita repercussão na época, foi muito visto, muito discutido. Mas de maneira alguma é clássico, ou caso contrário daqui a trinta anos estaremos nos referindo a ''O Código Da Vinci'' como clássico simplesmente porque está levando multidões às salas.
Nesta versão século 21, o mesmo roteirista, David Seltzer, apenas retocou muito levemente sua história original. Há uma ou outra situação ligeiramente modificada (os pais do diabinho eram atores mais velhos, Gregory Peck e Lee Remick), uns mínimos detalhes incorporados, um par de cenas mais esticadas, outras reduzidas. Enquanto isso, o diretor irlandês John Moore, artesão para o gasto hollywoodiano (''O Vôo da Fênix''), imprime aqui e ali grau maior de estilização e virtuosismo, além de lançar mão da cota de efeitos especiais a que tinha direito por concessão do orçamento folgado de 60 milhões de dólares.
Agora, tem algum sentido repetir um filme, em processo de quase clonagem (neste sentido só perde para aquela rematada bobagem que Gus Van Sant fez com ''Psicose'') três décadas mais tarde? Com certeza não. O que não significa que, julgada em si mesma, esta Profecia não tenha lá seus méritos, pelo menos os mínimos. Em que pesem suas debilidades, o roteiro reproduz de maneira quase idêntica a trama original acrescida de uma atualização em seu contexto político - aqui, o atentado de 11/09, a invasão do Iraque, a inundação de Nova Orleans, o conflito do Oriente Médio e as tsunamis funcionam como risível vestíbulo do Apocalipse.
Robert Thorn (Liev Schreiber) é o jovem diplomata dos EUA baseado em Roma. Ele está prestes a ser pai. Mas o parto da mulher, Katherine (Julia Stiles), se complica e, segundo informam a ele, a moça perde o bebê. Os padres que administram o hospital convencem o pai mergulhado em crise de nervos a adotar Damien, recém-nascido e órfão. Robert não só aceita como faz com que a mulher receba a criança como o filho natural que na verdade não tiveram. Tudo parece ir bem para o casal, com o crescimento profissional do diplomata agora embaixador em Londres.
Mas na festa de cinco anos de Damien (Seamus Davey-Fitzpatrick, um dos pontos mais vulneráveis da produção), a primeira tragédia, seguida por outras, pela alteração de comportamento do menino, pelas lúgubres participações do clero (Peter Postlethwaite e Michael Gambon) e do fotógrafo (David Thewlis), que descobre as artimanhas do demo.
Mas além das superficialidades, convenções e previsibilidades visuais e sonoras (como sempre nestes casos, há o recurso indigente do susto), o diretor Moore não chega a irritar porque sua narrativa é feita em moldes tradicionais. O clímax parece um tanto esvaziado de tensão, como complemento da solene liturgia de terror que a história vai aos poucos construindo.
Mas o grande momento do filme corre por conta da reaparição de Mia Farrow como a insólita baby-sitter de Damien. Surpreendentemente jovem e bonita - botox na medida certa -, Mia Farrow se apresenta ao casal com o currículo e revela: ''Há quase 40 anos venho criando meninos'', ela diz com sorriso angelical. Não há como esquecer que se passaram 38 anos desde ''O Bebê de Rosemary'', a obra-prima de Román Polanski. ''Este é o papel de minha vida'', ela acrescenta, na ótima ''private joke'' que o filme reserva aos cinéfilos.


