Curitiba - Oito documentários, três filmes prontos e mais três em produção. Apesar da produtividade, o reconhecimento do trabalho do cineasta acreano Siã Kaxinawá só aconteceu no exterior: seu filme ''Os Povos do Tinton-Rene'', de 1992, recebeu nos Estados Unidos o prêmio Reebok de Direitos Humanos. Siã é rápido ao apontar os motivos da falta de reconhecimento no Brasil: o pouco caso com que o País trata a população indígena. Com 39 anos de idade, Siã é o líder da tribo Kaxinawá, que habita a reserva do mesmo nome no Acre. O filme será exibido amanhã na Cinemateca em Curitiba, às 20 horas, seguido de um debate sobre a situação dos índios no país.
Siã explica que o interesse pelo videodocumentário surgiu na sua juventude, quando junto com o líder seringueiro Chico Mendes lutava pelos direitos dos índios e dos trabalhadores da floresta amazônica. ''Eu sentia uma dificuldade para lutar em pé de igualdade com os interesses dos produtores. Como é que você vai enfrentar essa situação quando só valorizam as pessoas que tem títulos, nomes importantes? Daí que surgiu meu interesse pelo documentário, como uma forma de jogar as imagens e mostrar o que estava realmente acontecendo'', explica Siã.
O cineasta se considera um autodidata. ''Comecei observando as filmagens que eram feitas na reserva. Daí comecei a mexer com a câmara VHS, e descobri que tinha facilidade para aquilo. Aí fui evoluindo, sempre aprendendo mais, até agora, quando faço meus filmes com câmeras digitais'', conta o líder indígena em entrevista à Folha.
Siã faz questão de realizar praticamente todas as tarefas relacionadas as filmagens, tanto nos filmes como nos documentários. Além de escrever o roteiro, ele dirige os atores, filma as cenas e depois edita o resultado final. ''Eu não concordo com essa divisão do trabalho, onde cada um é especialista em apenas uma coisa. Acho que a pessoa tem que entender de tudo para fazer um trabalho bom. Tive dificuldades principalmente para aprender a ser um bom diretor: é difícil às vezes não ser valente, ou bravo, com alguma pessoa que você está dirigindo'', ressalta Siã.
Durante todo seu aprendizado como cineasta, teve um obstáculo que Siã reconhece não ter sido capaz de transpor: a dificuldade de veicular seu trabalho para uma audiência maior. ''Tudo é difícil. Não tem nada a ver com a qualidade do seu trabalho: é uma série de negociações, burocracias e políticas que hoje eu já não me sinto mais capaz de enfrentar'' confessa Siã.
Embora tenha apenas 40 anos, Siã demonstra cansaço após uma vida de produção cultural voltada para a revalorização dos povos indígenas. ''Toda a temática dos meus filmes foi voltada para a causa indígena. A situação melhorou agora, a repressão é bem menor contra as tribos. Mas eu já não sinto mais a mesma disposição da juventude para lutar, viajar o país inteiro, retratar a realidade e enfrentar o governo. Felizmente, existem outros que estão seguindo o mesmo caminho e são mais jovens.''
Agora, Siã pretende aumentar o escopo de temas abordados por suas filmagens. ''Penso em fazer mais filmes e menos documentários. Também quero fazer um filme que não seja tão focado na cultura indígena'', afirma. Mas não sem antes realizar mais um esforço pela causa. ''Eu percebo que os índios da Região Sul têm muito mais dificuldades e estão mais desamparados do que os do Acre e do Norte. Ainda quero retratar isso'', diz Siã.

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