A criação artística baseia-se essencialmente na realidade. Até para subvertê-la, negá-la ou simplesmente inventá-la. Visto por este ângulo, o poeta japonês Satori Uso existiu de verdade. Apesar de ter nascido há vinte anos na imaginação do poeta pé-vermelho Rodrigo Garcia Lopes, Uso teve haicais publicados em seu nome na extinta página Leitura, aqui mesmo na Folha de Londrina. O haicaísta foi motivo de comentários elogiosos de leitores e entendidos até Paulo Leminski teria gostado dos poemas de Uso.
Assim, é possível falar com materialidade sobre este homem afinal, ele teve origens, produção, trajetória de vida e até um amor não correspondido. O cineasta Rodrigo Grota acreditou tanto nessa máxima que resolveu contar a história do haicaísta em um documentário cinematográfico. Um documentário sobre alguém que sequer existiu? Pois é, e sobre seu romance com Satine, o grande amor de sua vida que o teria abandonado na Londrina da década de 50.
A idéia de produzir um curta-metragem sobre a vida do personagem surgiu de uma conversa entre os dois Rodrigos, depois que Garcia Lopes apresentou a Grota os poemas e a história de Uso. Porém, para transformar esta história em filme, foram necessárias algumas modificações, tanto no percurso quanto na personalidade de Uso. ''O filme vai mostrar um Satori Uso mais introspectivo, mais isolado do mundo'', afirma Grota, diretor da produção.
Originalmente, o poeta japonês teria nascido em 1945 e migrado para o Brasil apenas em 1975. Depois de perder quase toda a sua obra (entre peças nô, haicais e até um romance chamado ''Patty'') durante a viagem, tentaria harakiri e acabaria em um sítio de um amigo em Assaí. O documentário, porém, apresenta um Uso mais velho, que teria vindo ao país décadas antes. O roteiro é centrado na relação amorosa do poeta com Satine e no desejo crescente do poeta de desaparecer.
O curta, que deve ter 15 minutos de duração, vai aproveitar também imagens dos pioneiros Hikoma Udihara e Orlando Vicentini (em processo de restauração), além de trechos de ''Isolation'', uma película inconclusa do cineasta Jim Kleist que, aliás, também não existe.
Se é brincadeira? Sim, como se deve brincar com a linguagem artística, numa atividade bastante saudável à criação. Vale ressaltar, porém, que se trata de uma brincadeira bastante séria, envolvendo inclusive artistas londrinenses renomados. Além da participação do já citado poeta Rodrigo Garcia Lopes no roteiro, a produção vai contar com Arrigo Barnabé na trilha sonora. (Arrigo, aliás, é o personagem de ''Inimigo público número um'', produção independente de Grota também em fase de finalização.)
Orçada em R$96.904,00 e com recursos do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), ''Satori Uso'' é a primeira e mais cara produção em 35 mm que conta com uma equipe de londrinenses nos cargos principais. Apenas o diretor de fotografia, Carlos Ebert (o mesmo de ''O Bandido da Luz Vermelha'', de Rogério Sganzerla), vem de fora.
A atriz Caren Utino, de São Paulo, vai viver Satine, enquanto Uso vai ser interpretado pelo escritor e historiador londrinense Rogério Ivano. As filmagens já terminaram. ''A produção deve enfocar a cidade de Londrina em três fases: primitiva, nostálgica e contemporânea'', adianta Grota. O filme deve ser lançado na 8 edição da Mostra Londrina de Cinema, programada para o segundo semestre.

mockup