Peter Greenaway é o primeiro a ironizar - o cinema está morto, como não se cansa de dizer -, mas ele, que adquiriu ''uma certa reputação'' (as aspas são suas), está mais vivo do que nunca e o seu trabalho continua ligado à produção e exibição de imagens. Greenaway esteve no Brasil recentemente. Veio assinar contrato no 16º VideoBrasil, o festival de arte eletrônica de São Paulo, no fim de setembro. O evento deste ano tem como tema a aproximação do cinema com o vídeo e as artes visuais.

Greenaway é o homem certo para receber uma homenagem. Há mais de 20 anos ele trabalha com novas tecnologias - leia-se, HD, High Definition, o vídeo de alta definição.


Como será sua performance no Videobrasil?
Será uma performance de VJ, embora eu não seja um, evidentemente. Pretendo remixar ao vivo cenas de ''Tulse Luper Suitcase''. A idéia é projetar as imagens em telas montadas na rua (NR - ao lado do prédio do Sesc Paulista), trabalhando a música em cima delas. Isso cria um clima favorável à libertação do corpo. As pessoas até dançam durante minha performance e por isso gosto de fazê-la na rua, sem a limitação do espaço de uma discoteca. Devo trazer uma equipe reduzida. O mais importante é o equipamento, o touch screen, uma tela sensível ao toque que me permite projetar milhares de imagens nas telas múltiplas, o todo estando associado à música.

''Tulse Luper Suitcase'' virou um filme mítico. Há quase dez anos que você trabalha neste projeto. Foi difícil de concretizar?
Meu produtor conseguiu montar a engenharia financeira porque, você sabe, disponho de uma certa reputação por meu trabalho no cinema. Mas só o dinheiro não resolvia o problema. A operacionalidade foi até mais complicada que a engenharia financeira. ''Tulse Luper'' é um personagem que me persegue, um escritor que viveu em várias prisões. Ele concentrou toda a informação do mundo em 92 malas distribuídas pelos lugares mais distantes. Uma pode estar ali, naquele morro (NR - Ele aponta para o horizonte, para a Serra da Cantareira, vista da Av. Paulista). O filme, propriamente dito, foi realizado entre 2002 e 2003 e tem sete horas de duração, mas o projeto é mais amplo. É interdisciplinar, ou multimídia. Envolve uma exposição com as 92 malas de Tulse Luper, e elas contêm informações diversificadas, complementadas por performances e palestras.

Hollywood celebra recordes a cada temporada, mas você insiste em dizer que o cinema está morto. Por quê?
Porque o cinema ficou desestimulante para as novas gerações. Existe todo um público formado na internet e nas novas ferramentas que a tecnologia fornece não apenas para quem faz arte, mas também para quem vê. O cinema virou uma arte burra. Não favorece a interatividade, num mundo cada vez mais interativo. Hollywood faz coisas interessantes, mas a média da produção do cinema americano é de filmes que duram duas horas e não dizem nada. Durante este tempo, você, entre muitos outros espectadores, fica sentado no escuro, olhando para uma tela à sua frente. É muito chato. Pense na interatividade que é possível encontrar no audiovisual fora do suporte cinema. Mas, atenção, quando digo que o cinema está morto, isso não implica em que a tela está morta. A tela é outra coisa. Está viva, só que não é mais somente a tela da exibição tradicional. Há hoje uma multiplicidade muito grande de telas. A TV, o celular.

O escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, recusava-se a vender os direitos de seu romance ''Ensaio sobre a Cegueira'' porque diz que o cinema mata a imaginação e isso é contra o conceito do próprio livro. Você também acredita que o cinema esteja matando a imaginação?
Um certo cinema, sim. Você fala de um livro e o cinema trabalha basicamente com adaptações - de livros, pulps, contos, não importa o que. O cinema deveria romper com a literatura e pensar mais em termos de pintura. As artes visuais abrem um campo enorme, que eu considero mais adequado para esse diálogo do cinema com as novas tecnologias e aproximação com outros suportes.

Mas você já fez filmes tradicionais, e grandes filmes. Estou pensando em ''O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante''.
O cinema me estimulava mais, mas à medida que ia avançando no diálogo com as outras artes terminei me dando conta de suas limitações. Não podemos ficar atrelados a um conceito de narração que vem da literatura e do teatro dramático do século 19. É muito empobrecedor, face às infinitas possibilidades que estão ao nosso alcance.

Isso significa que você vai mesmo parar com o cinema para se concentrar nesse diálogo multimídia?
O cinema é muito importante para mim e, apesar de tudo o que digo, ele continua muito presente em minha vida. Agora mesmo tenho esse filme sobre Rembrandt, ''Nightwatching'', que foi exibido esta semana no Festival de Veneza. Gravei em HD e o próprio Rembrandt adoraria a técnica, por suas possibilidades quanto ao uso da cor e da textura. Também pretendo realizar um filme aqui em São Paulo. Já tenho o roteiro e o financiamento prontos.

O que será este filme?
Será um filme sobre a pornografia. Existem em São Paulo áreas muito interessantes onde se concentra a exploração desse comércio. Ao mesmo tempo, acho muito interessante trabalhar aqui por causa da formação religiosa de vocês e da repressão exercida pela Igreja Católica, o que não impede a manifestação erótica, mesmo que ela seja muitas vezes culpada. O Brasil era um dos raros países do mundo onde, até relativamente pouco, a blasfêmia ainda podia ser condenada pela Justiça civil. Baseei-me num episódio histórico, fazendo a releitura visual de uma nova mídia de impressão do século 16.

Você não filma mais com atores conhecidos. Quem pretende usar neste filme?
Pretendo usar um elenco internacional, como tenho feito. O fato de não trabalhar com atores conhecidos deve-se ao fato de que eles trazem a carga de sua persona e ela está ligada a esse cinema narrativo do qual quero me afastar.

Mas você perde nesse processo. Helen Mirren, por exemplo, era extraordinária no ''Cozinheiro''...
Sim, Helen é uma grande atriz e tem uma grande capacidade de se adaptar a personagens diversos. Não digo que não quero mais trabalhar com atores conhecidos. Quero evitar os que me trazem essa informação adicional que não me interessa usar.

Você esteve no Brasil em 1998 para montar uma ópera, ''Cem Objetos para Representar o Mundo''. Parou com a ópera?
Não. No ano que vem, haverá uma feita em Saragoça. Pretendo estrear uma nova ópera sobre a Arca de Noé.

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